Narrativa ficcional inspirada no universo de RPG Naipes Estranhos para GURPS (em desenvolvimento). Vampiros, Fantasmas e um Assassino Serial em uma história de suspense e magia.
Quando aparentemente nada mais poderia mudar no cenário político
do Mundo Ausente, quando todas as Casas Vampiras estavam estabelecidas
em suas posições e o Conclave alcançara o auge
em influência, quando até na Faeria o horizonte era de
paz, tudo mudou e continuou mudando e mudando...
Em 1899, uma feiticeira anarquista chamada Solange Kraus liderou o
que se julgava impossível: uma revolta dos Carniçais
contra seus Mestres. A revolta iniciou-se na Alemanha, com os Servos
da Casa Juliot descontentes com a degradação de seus
senhores lutando por independência, mas se espalhou como rastro
de pólvora. Era um momento na história do mundo onde
toda a escravidão humana já havia sido abolida e declarada
hedionda, mas onde os Carniçais ainda eram forçados
a servir sem direitos ou reconhecimento, tratados como capachos mortos-vivos
por seus senhores, muitas vezes submetidos a maus-tratos, muitas vezes
escolhidos à força. Aproveitando-se de sua habilidade
de andar sob o Sol, eles se rebelaram. O conflito se estendeu por
não mais de cinco anos e afetou de formas diferentes as Casas,
com inúmeras mortes ocorrendo em ambos os lados. Ainda que
com isto os Carniçais tenham obtido um reconhecimento tardio,
passando a ser tratados com respeito e gratidão, a verdade
é que quase um século depois a confiança continua
abalada. Solange Kraus desapareceu em circunstâncias misteriosas
e para muitos Carniçais ela é cultuada com o mesmo fervor
de uma santa.
Poucos anos depois uma guerra avassaladora aconteceria na Faeria.
Uma quantidade inimaginável de tribos Orco unidas em uma aliança
profana avançou contra a civilização faérica
provocando um conflito que se estende até os dias de hoje,
geração após geração. Muitos refugiados
da zona de conflito passaram a migrar para o Plano Coeso, tentando
fugir da ira da batalha (normalmente apenas os mais abastados conseguem
pagar as taxas cobradas pelas Guildas Comerciais dos Anões
para realizar a passagem), tornando nosso mundo, principalmente a
Europa, um ponto de destino para Elfos, Anões e Humanos. Mas
mesmo aqui não permaneceria pacífico por muito tempo...
Logo depois eclodiria a I Guerra Mundial. Muitos acreditam que ela
teria sido provocada por conspiradores Juliot interessados em recuperar
seu lugar de volta no panorama mundial. Mas a Casa Juliot em nada
apoiou este conflito, procurando inclusive atrasar os políticos
alemães para que nada acontecesse. O fato puro e simples e
que esta guerra foi um confronto de laicos contra laicos, uma luta
na qual os sobrenaturais preferiram não se intrometer, cansados
de séculos de conflitos incessantes. Mas os Juliot preparavam
sua última investida contra o mundo civilizado, forjando uma
aliança funesta com a Deusa da Morte Hela, uma entidade moribunda
que teria se extinguido em poucas décadas, mas que ainda detinha
energia mística suficiente para alimentar a fogueira da mais
horrenda das guerras: a II Guerra Mundial.
Descrever os horrores públicos provocados por este conflito
seria uma tarefa para centenas de livros. E os horrores secretos,
praticados nos bastidores do Mundo Ausente não são muito
diferentes. Em cinco anos de guerra a quantidade de carnificina e
insanidade praticada foi equivalente aos mil anos de dominação
Juliot. O sangue literalmente inundou a Europa, sangue de laicos e
de sobrenaturais. Carteadores foram aniquilados, sacrifícios
coletivos foram realizados em honra de Hela, soldados e civis se tornaram
vítimas de experimentos arcanos e conheceram sofrimentos e
tormentos jamais presenciados sobre a Terra. Enquanto isso a Deusa
da Morte gargalhava e acumulava almas, um poder tão devastador
cujo crescimento descontrolado poderia ter engolfado toda a vida no
planeta. Viu-se a formação de uma nova Falange Furiosa
composta de traidores do Conclave, licantropos mercenários
dos mais diversos Totens unidos pelos ideais do nazismo. A própria
cruz suástica era um símbolo arcano, o sinal da involução
no coração daqueles que a seguiam. Hitler, ele mesmo
um feiticeiro Carteador, comandava multidões alternando discursos
magnéticos com encantos de controle e um carisma sobrenatural.
As fogueiras da Inquisição Juliot renasceram com nova
tecnologia e o mesmo propósito, e milhões de judeus
pereceram para alimentar a fome insaciável de Hela e seus protegidos.
Emma-O, o deus da morte japonês incitou seus seguidores na mesma
direção, ampliando o arco de vítimas.
Alguns afirmam que Anúbis foi despertado de seu sono no Antigo
Egito pelas tropas nazistas de Rommel. Outros acreditam que ele tenha
se tornado um Deus da Morte nômade desde o fim da última
dinastia egípcia, sobrevivendo das matanças provocadas
pelos Executores. Independentemente de seu paradeiro anterior, Anúbis
declarou guerra a Hela e a Emma-O, disputando o trono unificado de
Deus da Morte. Fala-se inclusive de um encontro secreto entre Roosevelt,
presidente dos Estados Unidos, e Anúbis encarnado que teria
lhe ordenado entrar na guerra em troca de um poder avassalador. A
História nos diz que o apoio dos americanos foi vital para
os Aliados e que em 1945 o segredo da bomba atômica foi descoberto
e utilizado sobre o Japão.
Hitler foi aniquilado em Berlim por Konstantin Kerevski, Vampiro Rasputin
e Carteador. E a Casa Juliot finalmente capitulou, sua esfera de poder
não indo muito além do quintal de seus castelos decadentes.
Hela sucumbiu diante da quantidade de poder acumulado, entrando em
uma espécie de colapso arcano, aparentemente ludibriada por
Anúbis que lhe ofereceu de uma única tacada a alma dos
soldados mortos no Dia D. Teólogos alertam que a solução
é provisória e que certamente Hela despertará
após conseguir absorver o fluxo místico, dotada de poderes
colossais. Este despertar poderá acontecer ainda este século
ou demorar mil anos, as teorias divergem. A Falange Furiosa foi novamente
extinta, mas seu nome e seu legado ainda provocam arrepios entre o
Conclave.
Mas o século XX ainda veria outras guerras...
A primeira delas, exclusivamente sobrenatural, foi a chamada Guerra
do Abismo, em 1950. Ainda que o conflito tenha sido estritamente localizado,
com suas implicações não se manifestando por
mais de cem quilômetros do foco, esta é considerada uma
das mais importantes batalhas da história do Mundo Ausente
e envolveu os maiores nomes de sua época em uma luta que provocou
muitas baixas.
Muitos estudiosos apontam a carnificina da Segunda Guerra Mundial
como o ponto de origem para os eventos acontecidos próximos
de Casablanca, Marrocos. Outros afirmam que o fato de se tratar de
um Nexo indevidamente explorado deixou a retaguarda enfraquecida para
a invasão. Todos estão certos. Atraídos pelo
teatro de horrores perpetrado em nosso mundo durante a guerra, um
exército de Demônios liderados por um Hierarca de Infernum
conhecido como Bael ultrapassou um dos portais presentes no deserto
e marchou em direção ao mundo dos laicos. Avisados por
um demônio traidor, as forças do Mundo Ausente se organizaram
para enfrentar o exército sombrio e impedir que o banho de
sangue alcançasse o conhecimento dos laicos.
O combate durou meses, pois a cada legião derrotada, mais e
mais criaturas emergiam do portal para fazer frente aos defensores
do Plano Coeso. Ocupados pelo combate, não percebiam que a
ameaça era ainda maior. Outro grupo de Demônios, Carteadores,
se infiltrou próximo aos outros Nexos e planejava utilizar
a força de Bael para forçar a criação
de novas passagens para o Abismo. Descobriu-se então que o
suposto traidor apenas pretendia chamar a atenção para
o exército do deserto, ocultando a ação dos Infiltrados.
Mas o ardil foi descoberto por um Santo no Rio de Janeiro, Haroldo
Batista, o Corpo Fechado, que derrotou o primeiro dos Infiltrados
em um Duelo. A notícia se espalhou e em pouco tempo eles foram
localizados. Vencer os Infiltrados já exigiu um pouco mais
de tempo, mas no fim todos foram banidos de volta aos Planos Inferiores.
Irritado pela derrota, Bael ameaçou desencadear uma mortandade
sem precedentes pelas próprias mãos e desafiou os maiores
Carteadores do mundo para um combate final. O desafio foi aceito pelo
Concílio dos Cinco, pela Sociedade de Bombaim e pelos Quatro
da Noite. E por Pharad, um desconhecido de quem ninguém jamais
ouvira falar. Bael enfrentou a todos de uma única vez. Konstantin
Kerevski e Natalia Bloom, do Concílio foram aniquilados e todos
os Quatro da Noite teriam o mesmo destino se não fossem salvos
por Relíquias preparadas previamente. A Sociedade de Bombaim resistia
ao confronto, empatados em poder com o Hierarca. Mas foi Pharad que
selou o destino de Bael ao lançar na mesa a Ampulheta do Armageddon,
uma Adicional desconhecida, capaz de aniquilar o oponente em poucos
turnos se este não fosse capaz de derrotar o usuário.
Surpreso, o Demônio hesitou e foi o tempo necessário
para os demais duelistas desviarem todas as suas táticas de
proteção para Pharad. A Sociedade de Bombaim perdeu
três de seus membros para a Aniquilação para defender
Pharad, mas o resultado foi decisivo: Bael foi aniquilado e seu exército
banido de volta.
O Nexo de Casablanca foi permanentemente fechado depois da Guerra
do Abismo e os demais Nexos passaram a ser vigiados com mais cuidado.
Pharad foi aceito para o Concílio dos Cinco, que nunca conseguiu
preencher a quinta vaga e aquela Adicional nunca mais foi vista. O
passado de Pharad, assim como sua inacreditável sorte, continua
sem explicação, mas ele demonstrou várias vezes
depois que é uma imprescindível presença do lado
daqueles que pretendem defender o Mundo Ausente.
A última guerra de interesse histórico para Naipes Estranhos
foi a Guerra do Vietnã. Não por suas ramificações
globais (que foram poucas), não porque o Mundo esteve ameaçado
(longe disso, foi um conflito completamente local) e tampouco pelo
sangue derramado em atrocidades (que infelizmente foi alto). Mas sua
importância é cultural. Uma vez que a história
de Naipes Estranhos se inicia em 1982, são apenas dez anos
desde a derrota americana e esta é uma ferida muito dura de
cicatrizar no coração de PCs e NPCs daquele país,
principalmente se eles lutaram. Vietnã foi uma guerra primitiva,
na selva, travada não com metralhadoras e napalm como fomos
ensinados a pensar, mas com levas de Licantropos vagando pelo mato
a noite caçando-se uns aos outros, Demônios mercenários,
desertores da Guerra do Abismo, oferecendo seus conhecimentos e suas
armas exóticas para quem pagasse mais alto e feiticeiros estimulando
o lado mais primitivo dos laicos que iam para o campo de batalha.
Essencialmente uma guerra suja.
De um lado havia os Homens-Tigre asiáticos e os Vampiros Rasputin
em uma estranha e conflituosa aliança jamais admitida. Do outro
lado, Serial Killers e Homens-Cobra recrutados por um junta de alistamento
militar americana muito bem assessorada. E no meio de tudo, camponeses
e soldados laicos dilacerados por uma máquina de guerra cujos
motivos lhe eram desconhecidos. Os Homens-Tigre lutavam para proteger
uma área considerada sagrada por eles, um conjunto de templos
localizados no interior do Vietnã, de onde sua raça
teria surgido. Os Rasputin buscavam ampliar sua área de influência,
estimulando a guerrilha. E os americanos lutavam contra os comunistas,
movidos por uma política externa agressiva e militarista. O
Esquadrão Serpente tornou-se uma lenda na selva e os Serial
Killers viviam um momento único, passavam a se conhecer como
dotados pelo mesmo dom e se associar. Estudiosos sustentam que Anúbis
gerou um número alto de Executores durante o período
da guerra para aproveitar a colheita de mortes, mas jamais diminuiu
o ritmo de produção, o que provocou o atual estado dos
EUA: o país possui mais assassinos em série que todos
os outros países do mundo juntos (dado verídico).
Vencidos na selva do Vietnã e derrotados nas ruas dos Estados
Unidos, os americanos retiraram suas tropas, trazendo uma legião
de soldados traumatizados, Executores e Homens-Cobra que pegaram gosto
pelo sangue. Para o resto do Mundo Ausente, os EUA é considerado
um país perigoso, desprovido de diplomacia ou regras, uma visão
pós-modernista do sobrenatural.