Naipe Estranhos - Uma Narrativa de RPG O Que é Naipes Estranhos?

Página Inicial
Capítulo 57 Décadas atrás, quando Lírio Gelado entrou na mansão pela primeira vez, ela disse algo que Pharad jamais esqueceu. "Lugares como este, o meu povo lacra com selos mágicos e funda uma sociedade de guerreiros com o único propósito de manter os selos intactos ao longo dos séculos". Estava falando de Sutterville Dream e suas infinitas portas secretas. Naquela época, a biblioteca ainda guardava o odor nauseabundo dos habitantes do Abismo que ali se reuniam para contar piadas desprovidas de qualquer humor compreensível e tramar a derrocada da raça humana. Anel e sua estirpe foram expurgados com cartas, exorcismo e balas em Casablanca e a mansão foi vistoriada em todos os detalhes antes de Pharad se mudar para seu interior.

Z e Pharad gastaram um ano inteiro pesquisando a arquitetura multidimensional da casa. Viajaram incógnitos por mais mundos que a maioria dos Carteadores sequer sonharia ser possível. Encontraram raças e civilizações tão díspares que fugiam a toda e qualquer classificação. Algumas pacíficas, outras hostis. As passagens estavam ocultas em tapeçarias, em portas de armário, em escadas mal-iluminadas, em esquinas dobradas nas horas certas, no cone de luz de determinadas luminárias, em poltronas sedutoramente macias. Juntos, tentaram traçar um mapa dos portais. Em vão. As posições se modificavam seguindo critérios que desafiavam até a matemática alienígena de Z. O incompreendido Walter Sutterville havia construído ali sua obra-prima: um presente profano para aqueles que ousassem morar debaixo daquele teto. Um risco inaceitável, na visão de Lírio Gelado e Kelfrenin. Uma porta aberta para o universo, era a opinião de Z.

O legado do arquiteto ainda renderia revelações séculos após a sua morte e teria revolucionado sua época se não fosse sua morte prematura. Que interesses temiam aquilo que estava dentro da mente de Sutterville e começava a transparecer em seus projetos? E como tais forças foram incapazes de destruir aquela mansão? Nada de glória ou recompensas terrenas para o arquiteto, somente a Aniquilação por mãos incógnitas e a casca vazia boiando no rio, com sinais de putrefação.

Pharad encontrou uma fórmula oculta na simetria de Sutterville e demorou a acreditar na perfeição de seu propósito. Ele decerto não iria demolir a mansão, a última prova do gênio de um louco. Tomou esta decisão parte por respeito, parte por orgulho. Não tinha ilusões a este respeito: Sutterville Dream, para o bem e para o mal, agora lhe pertencia e caberia a ele desvendá-la e protegê-la. E, ao contrário do que imaginava a Fada e seu simbionte, havia selos mágicos na casa. Muitos. A Mansão drenava Mana em pequenas quantidades para seus próprios propósitos e o fluxo era tão imperceptível que mesmo Pharad só conseguira observar o fenômeno por duas vezes. Mas acontecia desde o momento de sua construção, debaixo dos olhos laicos de Eric Coltrane, do olhar treinado para oportunidades de Simon Griffith ou da percepção inumana de Anel. A Mansão possuía em algum ponto que Pharad jamais encontrara um acúmulo de energia mística de mais de um século. Energia suficiente para levantar o maior Domo Absoluto que ele já testemunhara.

Era um dos lacres de Sutterville. Algo dentro da casa ativara a principal defesa engendrada por seu arquiteto: uma barreira mística impenetrável que envolvia todo o perímetro da propriedade e que não deixaria nada nem ninguém atravessar, fosse humano ou sobrenatural, deste ou de qualquer outro Plano. Para todos os fins, a casa estava isolada e o que estivesse lá dentro não conseguiria escapar para o mundo exterior. Pharad experimentara os limites da barreira sem alarde, apenas para confirmar o que já suspeitava: o feitiço não era grandioso apenas por suas dimensões, mas também por seu poder. Rompê-lo exigiria um esforço extremamente alto.

O detalhe que o perturbava ainda mais era que no fundo ele sabia que a melhor estratégia naquele momento era deixar a barreira no lugar em que estava. Havia algo em Sutterville Dream que não devia escapar.

Capítulo Anterior Índice das Páginas

 

Índice das Páginas
Índice

Versão para Impressão
Versão para
Impressão

Adicionar aos Favoritos
Adicionar aos
Favoritos

Assine o Livro de Convidados
Livro de
Convidados

Recomende aos Amigos
Recomende
aos Amigos

Links de RPG
Links de RPG

 

Creative Commons License

Naipes Estranhos © 2003 Design e Conteúdo por Carlos Aquino