Narrativa ficcional inspirada no universo de RPG Naipes Estranhos para GURPS (em desenvolvimento). Vampiros, Fantasmas e um Assassino Serial em uma história de suspense e magia.
Capítulo 55
Mais de uma tonelada de metal enferrujado desceu sobre Danov, sem lhe dar a menor chance de fuga. Dylan escutou o violento rugido da carcaça metálica de um velho Buick se despedaçando contra o concreto. Pareceu durar toda a eternidade até que o estrondo cessasse e o silêncio retornasse àquela imensidão. ATHROPOS estava arremessando os carros em cima deles a cada vitória.
Danov não se deixou intimidar pela sombra da massa de ferro caindo sobre si. Era seu destino: havia perdido aquele turno. Pouca diferença faria se o ataque do Porteiro viesse em forma de estilhaços de vidro disparados em velocidade subsônica, se o chão se abrisse sob seus pés ou se fosse estrangulado com arame farpado. Nada daquilo era real. Eram abstrações do Duelo. Mas não podia deixar de admirar as sombras produzidas por um Sol que não estava lá.
Ninrod sabia que em condições normais, ser esmagado por um pedaço de ferro-velho não seria fatal para vampiro algum. Ele seria reduzido a uma pasta sangrenta de carne e ossos, mas estaria de pé novamente em menos de um minuto, como se nada tivesse acontecido. Ali, em Duelo Astral, Danov emergiu debaixo do carro machucado, mas muito longe de estar perto da morte.
Dylan ainda não conseguira decifrar em qual das Dez Esferas eles haviam sido levados. A julgar pelo cenário, qualquer um imaginaria estar em Morte. E seria muito apropriado para ATHROPOS. Mas não estavam. Ele teria sentido no exato instante que chegaram o poder de Morte: era um lugar que conhecia intimamente, onde ficara aprisionado durante meses e aprendera a controlar. Aquela Esfera podia se parecer com Morte. Mas não era. Estava soltando suas cartas no escuro, sem saber se seu poder estava sendo ampliado ou reduzido. Estaria ATHROPOS agindo da mesma forma? Era impossível dizer. A entidade assumira várias formas ao longo de seus encontros, algumas com plenos conhecimentos das mais ínfimas particularidades do Duelo e outras que disputavam como se não tivessem a menor noção do que faziam. Os resultados até agora eram preocupantes uma vez que Dylan e seus aliados já haviam entrado na batalha carregando os ferimentos do confronto físico. Uma das constantes características do Porteiro era a violência.
Estavam em Natureza. A Esfera não estava representada de uma forma que se revelasse ao primeiro olhar e, em seu primeiro turno, Danov acreditara que estivesse em Morte e jogara de acordo. Mas o desgaste espontâneo ao final de cada turno não viera. Em Morte, os perdedores de cada ciclo tinham uma preocupação extra quando o poder da Esfera os dragava para seu centro, uma pequena fração de cada vez, tentando conduzir os Duelistas a um fim prematuro. A dor era lendária. Irreal em seu sentido físico, mas insuportável em seu simbolismo. ATHROPOS vencera a todos logo no começo e determinara como iria conduzir suas vitórias, com os veículos estacionados erguidos no ar por uma força invisível e jogados contra eles como aríetes de seu triunfo. Mas a Esfera não cobrara seu preço individual. Não estavam em Morte. Estavam em Natureza. O vampiro não tinha condições de saber se seus aliados haviam descoberto isto e não iria dizer em voz alta para que o inimigo escutasse, mas ele vira a resposta onde antes haviam automóveis apodrecidos. No meio de todo aquele concreto de um pátio de estacionamento infinito, um pequeno broto de planta emergia de uma minúscula rachadura. Estavam em Natureza. Danov mudou sua estratégia e começou a lançar suas cartas de Paus.
O semideus tinha uma Seqüência de vinte cartas. Era uma quantidade absurda de poder para um único ser. Dylan tinha dez, Danov onze e Ninrod apenas sete. ATHROPOS podia escolher entre vinte opções qual usaria para atacar. E mais cartas significavam mais Arcanos Superiores, mais vantagens. Por outro lado, não carregava Relíquias... e isto era algo que o demônio parecia ter de sobra.
Relíquias são uma série de Cartas raras não-pertinentes ao baralho tradicional. Não estão vinculadas diretamente à Fonte e sua verdadeira origem constitui um mistério. Podem ser acessadas através do uso simultâneo de dois Coringas e sua distribuição é aleatória. Não contam dentro do limite da Seqüência. Seus poderes deformam as leis do Duelo, acrescentam ao Duelista capacidades que não poderiam existir de outra forma, prejudicam o oponente, parasitam outras cartas. Alguns especialistas acreditam que estas Relíquias são ruínas de um outro Baralho, de uma outra realidade, que podem ser adquiridas em ocasiões raras ou através de barganhas com criaturas do Abismo. Algumas entraram para o mundo dos mitos, como a Ampulheta do Armageddon, capaz de aniquilar o oponente em poucos turnos se este não fosse capaz de derrotar o usuário. A carta que Pharad usara para aniquilar Bael e vencer a Guerra do Abismo nunca mais foi vista.
Ninrod colocara duas Relíquias em jogo. Podridão era uma delas. Não era uma carta difícil de encontrar (Eldritch havia descartado uma dessas em uma das lutas dos "London Boys" contra o Regurgitador). Seus efeitos eram cruéis, sua fidelidade nenhuma. A Relíquia apodrecia a alma de todos os envolvidos no confronto, sem exceções. Se cem Duelistas estivessem participando da luta, ela afetaria os cem. Inclusive o próprio Ninrod. A cada ciclo que se iniciava, todos sentiam seus horrores, pouco importando que proteções ou resistências naturais possuíssem. O dano infligido era alto, o preço que ela cobrava de suas vítimas era maior do que se estivessem na Esfera Morte. Ninrod não se importava com seus aliados ou com sua própria dor, não via as chagas se abrindo em sua forma astral ou sentia a dissolução: seu objetivo era a destruição de ATHROPOS. Para isto ainda tinha Magnetismo Arcano ativada. Sua segunda Relíquia drenava parte da vitae do Porteiro e repassava para o demônio a cada ciclo. Se não compensava as perdas de Podridão, enfraquecia o oponente cada vez mais.
Danov suportaria os ataques de Podridão pelo tempo que fosse necessário. Tinha absoluta convicção de que ATHROPOS cairia antes dele. Mas temia pelo fantasma. A resistência de Dylan, mesmo com as vantagens que sua condição pós-vida lhe garantiam ali em Duelo, não poderia ser muito maior do que a de um homem comum. Antes de ATHROPOS cair, o fantasma iria primeiro. Danov admirava o estilo de luta de Dylan: estava diante de alguém muito bem treinado, com pleno controle de sua concentração e mestre nas artes da estratégia e do blefe. Reconheceu no americano traços do estilo oriental de Duelo, algo que o próprio Danov possuía no começo de sua carreira como carteador, mas que deixara para trás após tantas tardes de Duelos contra Eldritch e seu talento nato para o "jogo sujo". A concentração de Dylan era impecável, sua tática rasgava como navalha e, se estava perdendo, era somente porque suas cartas eram baixas. Ou o fantasma estaria segurando suas cartas mais altas para uma arrancada final?
Uma tonelada de metal que não existia pairou por um segundo sobre a cabeça de Dylan Carmichael e então desceu. Enquanto isto, uma Relíquia de outra dimensão chamada Podridão calculava quanto tempo ainda restava até o próximo ciclo começar e libertar sua nuvem invisível de degradação.