Narrativa ficcional inspirada no universo de RPG Naipes Estranhos para GURPS (em desenvolvimento). Vampiros, Fantasmas e um Assassino Serial em uma história de suspense e magia.
Capítulo 54
Swantson nunca entendera a expressão “sentia o gosto de estanho na boca” quando as pessoas estavam se referindo a sangue. Não conhecia o gosto de estanho e, para ser plenamente sincero, se visse uma barra de estanho na sua frente não conseguiria sequer reconhecer o metal. Muito menos colocá-lo na boca. Mas o gosto do sangue ele conhecia, principalmente o seu próprio. E estava com a boca cheia do sabor.
Quebrara um dente. Não chegara a cair da gengiva, mas estava perdido. Tocou-o com a ponta da língua e sentiu-o frouxo. E doía pra cacete.
Seu segundo impulso (como não podia deixar de ser), antes mesmo de se levantar, foi checar as armas. Os revólveres ainda estavam nos coldres e isto era bom. Porque a noite ainda não tinha acabado. Estava caído no chão do jardim, olhando para a janela de onde saltara, cinco andares acima. Tinha boa memória e algo que tinha certeza era de que a mansão não tinha cinco andares. Eram somente três quando a festa começara, mas agora a janela com os vidros quebrados estava localizada no quinto andar da casa e ele sabia pelas dores no corpo que a altura não estava errada.
Levantou-se com esforço e flexionou os membros. Não tinha nada mais quebrado, nem mesmo um dedo. O ombro esquerdo latejava e era tudo. Quando era apenas um contador, uma queda desta teria lhe custado um gesso na perna em um dia bom ou um traumatismo craniano se Deus estivesse de mau-humor. Assassinos seriais faziam algo parecido todas as semanas.Ainda que não pudesse descartar a possibilidade do traumatismo até o dia seguinte. Levou a mão até o dente enfraquecido e o puxou. Cuspiu o resto de sangue que tinha na boca.
Estava fora da casa e longe da Matriarca. O que quer que estivesse acontecendo lá dentro não era mais de sua conta. Nunca fora mesmo. Queria agora a chuveirada que não tivera a chance de tomar, uma confortável cama de motel e o cheiro acre de óleo diesel de uma rodovia. Nem mesmo olhou para trás enquanto se dirigia para dentro do jardim, em direção a saída. A Fantasma poderia espalhar a mentira que quisesse sobre seus pais para quem ela bem entendesse. Mesmo que fosse verdade, Swantson não estava interessado. Passou longe do tênue brilho das chamas que ardiam em algum ponto do jardim, procurando se manter o máximo possível oculto pelas folhagens.
Não foi tão longe quanto queria e sequer chegou perto da saída. Esbarrou abruptamente em algo no meio das árvores. Não conseguiu ver o que era, recuou como um gato assustado e já estava com uma das armas apontada para a escuridão antes que se desse conta que não havia nada em que atirar. Avançou cautelosamente e ouviu um baque metálico quando o cano do Colt esbarrou em ar sólido. Estendeu a outra mão e tocou o vazio entre os galhos com a palma. Sentiu uma superfície lisa, insuportavelmente lisa como vidro e fria ao toque. Um tipo de barreira invisível se estendendo a sua frente. Acendeu o isqueiro diante de seus olhos e não viu nada de diferente. Mas estava lá e não deixava ele passar. Percorreu sua extensão e começou a perceber coisas estranhas: galhos contorcidos do lado de dentro e do lado de fora da barreira, separados violentamente, folhas achatadas contra o ar e algumas árvores partidas ao meio, secionadas no momento em que aquela muralha surgiu. Talvez houvesse uma brecha em algum ponto. Talvez pudesse passar por cima do feitiço. Ou talvez não: olhando para cima pode ver os galhos mais elevados separados pela mesma força que isolava os mais baixos.
Um pensamento sombrio veio a sua mente. Considerou que aquele muro deveria ser um tipo de proteção para os ocupantes de Sutterville Dream: pelo que vira em algumas horas, Pharad tinha inimigos. Alguns poderosos, outros traiçoeiros. Uma barreira envolvendo toda a propriedade era o tipo de notícia que estragava seus planos de sair da festa mais cedo.
Mas havia seiva saindo de dentro das árvores que foram partidas ao meio pela muralha. Seiva fresca. Assim como os dois andares extras na mansão, aquela muralha não existia até algumas horas atrás. Alguém estava tentando fazer prisioneiros.
Era a segunda armadilha em que ele caía em menos de uma semana. Neste ritmo, estaria morto antes de ver a formatura do filho. A menos que começasse a ficar mais esperto. O primeiro passo seria poupar munição. Quem tivesse criado uma barreira daquele tamanho (e pelo pouco que conhecia dos princípios da Magia, estava diante de um feito espetacular) não teria feito um trabalho de tão pouca qualidade que pudesse ser rompido com tiros de revólver. Swantson iria guardar as balas para o momento em que visse um alvo móvel. O segundo passo seria parar de perder tempo procurando uma brecha: a superfície do muro era impecavelmente lisa, perfeita. Não iria encontrar um buraco do seu tamanho na próxima esquina. O terceiro passo seria encontrar aliados: desta vez era claro que a armadilha não estava direcionada para ele. E outros poderiam ter sido pegos no fogo cruzado também. Se Sutterville Dream estava sendo invadida... era melhor não ser encontrado sozinho perambulando no jardim. Caminhou em direção ao lugar onde tinha visto o brilho de fogo.
Uma parte do jardim estava queimando. Não era um incêndio, mas já fora. As labaredas sobreviviam com certo custo na ponta de galhos chamuscados. O raio do fogo era um círculo bem nítido, como o ponto de impacto de uma bomba, onde a grama estava enegrecida e os arbustos calcinados. No círculo, Swantson viu três carteadores. Eles duelavam entre si e Swantson sabia que não era um encontro de cavalheiros.
Um deles deveria ser um fantasma também: vestia smoking preto e passaria desapercebido em qualquer evento da alta sociedade, mas metade dele estava dentro do solo e a metade de cima faiscava como um televisor perdendo a sintonia. Tinha os olhos fixos no vazio. Estava vendo algo em algum Plano Astral que ele não podia ir.
O mais alto deles era intimidante. Mesmo caído no chão com as costas queimadas era uma visão ameaçadora. Dois metros de altura, músculos proporcionais ao de um guerreiro medieval e uma espada firmemente segura entre os dedos crispados. Mas a roupa era Armani, ou fora um Armani. Um terno daqueles era um mês de salário de Swantson e agora estava inutilizado.
O terceiro homem era careca. E alto, ainda que não chegasse a ter a mesma altura do cara com a espada. Vestia-se de maneira simples e estava sentado em posição de lótus no centro exato do círculo de chamas. Repousava as mãos sobre os joelhos e empunhava um ancinho em cada uma. Estava de olhos fechados e com a cabeça ligeiramente encurvada.
Não conhecia nenhum deles e não fazia a menor idéia de a quanto tempo estavam ali. Houvera uma luta física entre os três, isto era claro. Mas agora eles estavam acertando suas diferenças em outro lugar.
Swantson poderia ter retornado para a mansão. Mas entre a Pirâmide gigante e a Matriarca vagando pelos corredores de uma casa que se modificava a cada instante e o resultado daquele Duelo, estava mais ansioso em descobrir o segundo. Procurou um ponto afastado onde poderia manter os olhos abertos sobre os três ao mesmo tempo e onde também pudesse se encostar e descansar os músculos fatigados. Talvez tivesse que enfrentar quem saísse vitorioso daquele círculo. Nunca se sabe.