Narrativa ficcional inspirada no universo de RPG Naipes Estranhos para GURPS (em desenvolvimento). Vampiros, Fantasmas e um Assassino Serial em uma história de suspense e magia.
Capítulo 53
Jennifer Long parecia mais surpresa do que todos. A porta se abrira e agora todos os presentes na biblioteca (e não eram poucos) estavam olhando fixamente para ela com espanto no olhar. Notou que seu marido não estava ali e desejou ardentemente que estivesse. Não exatamente por saudades, mas por um súbito e intenso calafrio. Não tinha qualquer afinidade com o sobrenatural e conversava muito pouco a respeito com Dylan (ambos preferiam que fosse assim). Mas estava com a nítida sensação de que algo estava fora do lugar e este algo era ela. Estava completamente sóbria agora e preferia não estar.
Fiodor Rasputin não era capaz de guardar rancores por muito tempo. Uma taça de vinho ou uma bela forma quente e macia conseguiam fazê-lo feliz novamente. Agora, com a porta da biblioteca aberta e a exuberante atriz com olhos de corça assustada em pé diante dele, sua mente se enchia de lascívia. Pharad poderia ir para o inferno, levando junto todos os licantropos da face da terra, não faria diferença. O vampiro estava ficando indócil; uma noite sem sexo era uma noite desperdiçada.
Kira não compartilhava da mesma opinião. A mulher na soleira da porta não guardava significado algum para ela; era tão somente um desvio em direção ao corredor. A festa se tornara algo enfadonho, tão insuportável que a companhia de Fiodor se transformava em uma opção agradável. Não estava interessada na aniquilação do infeliz homem-lobo ou no sumiço da atriz famosa. Queria somente ir embora, dançar pelo resto da noite que logo acabaria, flertar com os humanos e descansar. Pegou o embaixador soviético pelo braço e saiu da biblioteca, sem se despedir ou olhar para trás.
Pharad tinha uma visão aguda. E uma voz doce. Ele conduziu Jennifer até a poltrona mais próxima e a acalmou com palavras e encantos sutis. Escondia dos demais as sondagens que realizava: buscava avaliar o que acontecera com ela durante sua ausência. E via, com clareza, a figura do Porteiro vagando por entre os andares, na forma de um jardineiro que carrega dois ancinhos, o rosto impassível de uma estátua, atravessando pisos, paredes e portas sem ser notado. Até o momento em emergiu no meio da cama onde ela dormia sem perturbar os lençóis. Pharad serviu um copo de água gelada para ela e perguntou se estava tudo bem. Mas já sabia a resposta. Jennifer Long não tinha nenhum ferimento, físico ou astral, e nenhuma lembrança a qual ela mesma pudesse ter acesso. Nada sabia sobre No Future, no entanto.
Lady Flower sorria. Olhava para os próprios joelhos nus e fingia remover uma sujeira que não existia.
Chinoko também se aproximou. E perguntou se ela estava bem. Não tinha como ter respostas para isto, então apenas acreditou quando ela respondeu que sim e Pharad confirmou com um leve movimento de cabeça. Ainda assim, se ajoelhou aos pés da humana e segurou suas mãos entre as suas. Podia compreender, é claro, parte do fardo de Jennifer: testemunhar e participar de eventos para os quais não fora preparada. Eram forasteiras e a ajuda de estranhos era sempre bem-vinda.
Em outra época, ou outro lugar, Nicholas Smith seria o primeiro a fazer o atendimento. Era médico. E Santo. Mas sentia-se um humilde aprendiz diante de Pharad e, se o anfitrião afirmava que estava tudo bem, então poderia relaxar. Um dos mistérios havia se solucionado sozinho. Precisavam apenas esperar que o marido, o vampiro e o demônio retornassem dos jardins e, juntos, descobririam a identidade do aniquilador. Simples, se uma voz dentro dele não insistisse que algo estava terrivelmente fora do lugar.
Uma curta, mas forte explosão sacudiu a noite em Sutterville Dream. Jennifer soube no mesmo instante que aquilo não era um acontecimento comum para os outros presentes. Fiodor passou a acreditar que possivelmente aquela noite poderia se transformar em um desastre. Kira não viu quando seu companheiro se afastou; ela olhava pela janela do corredor o clarão que vinha do lado sul do jardim. Pharad desviou os olhos de Jennifer por um longo segundo e viu que a mansão não era mais segura para os convidados. Chinoko pensou em Danov e tentou não imaginar o que a explosão poderia significar. Nicholas dirigiu-se para a porta de saída, mas uma voz o deteve. Uma voz infantil.
- Não vá por aí, Santo. Não é o melhor caminho.
Pharad olhou para Lady Flower como quem desperta de um sono curto e conturbado. Olhou dela para a porta e da porta para Nicholas, que segurava a maçaneta sem muita confiança. Era a mesma porta por onde minutos antes Jennifer entrara e Kira e Fiodor haviam saído. Mas o que havia do outro lado, não.
- Ela está certa. A mansão... se modificou. Não abra esta porta.
- O que está acontecendo? – Nicholas tirou a mão da maçaneta e a “limpou” na calça sem perceber.
- Eu não sei ainda, mas...
- Você tem um intruso na casa, Pharad. E não é ATHROPOS. –disse a vidente.
Eles escutaram o som arrastado de um pesado portão de ferro sendo aberto na distância. Era mais um rugido de antigas e rígidas dobradiças sendo usadas pela primeira vez em muitos anos. Em seguida, houve um estalo de madeira. Depois o barulho de vidro quebrando, mais próximo desta vez. O silêncio não retornou mais a medida que uma cacofonia de portas batendo, fechaduras girando e o constante ranger de engrenagens envelhecidas tomou conta do ambiente.
- O que sugere... sacerdotisa?
A menina deu uma gargalhada solta, como se sua idade aparente e real se igualassem por um divertido momento. Mas quando voltou a falar, não havia nada de infantil em sua voz. Era seca e antiga.
- Evacue a casa. E convoque o resto do Concílio.
Pharad trincou os dentes. Olhou novamente para a grande porta de madeira do outro lado da biblioteca. Por ali seria muito desgastante. Não tinha garantias de que todos conseguiriam. Viu a saída oeste da biblioteca, o Salão Marfim e a área externa: um caminho ainda intacto. Testemunhou com tristeza que o resto da mansão não mais lhe pertencia.
Junto com Nicholas, coordenou a saída dos últimos convidados, sem deixar transparecer o princípio de medo que buscava se alojar em seu peito.