Narrativa ficcional inspirada no universo de RPG Naipes Estranhos para GURPS (em desenvolvimento). Vampiros, Fantasmas e um Assassino Serial em uma história de suspense e magia.
Capítulo 51
- Puta que pariu! Nós já passamos por aqui... – resmungou Swantson, mais alto do que a Matriarca consideraria conveniente.
Os dois tinham saído por uma porta branca ornamentada e estavam agora no meio de um dos corredores laterais da mansão. Em uma das paredes, uma longa fila de quadros imensos retratando cenas campestres do século XIX, o tipo de arte genérica que Swantson via pendurada em hotéis três estrelas para disfarçar as manchas de infiltração. No caso da casa de Pharad, as pinturas eram originais e combinavam com o tapete medieval, com o rodapé finamente ornamentado e com os lustres de cristais. Na outra parede, janelas de ponta a ponta mostrando o jardim mal-iluminado. No meio do corredor havia uma mesinha e, em cima dela, um vaso oriental com desenhos vermelhos. O mesmo vaso em que ele havia reparado quase uma hora atrás.
Estavam vagando por aqueles corredores sem ter nenhuma noção para onde ir.
- Tens certeza disto, senhor Swantson? – perguntou Matriarca. Ela estava guiando os dois e supostamente sabia o que estava fazendo. – Estamos em outro andar agora, não seria possível.
- Eu vi este vaso uma hora atrás. – ele se aproximou da peça para ter certeza. Havia uma lasca faltando, próximo a uma das alças. Não havia erro. – Estamos passando pelo mesmo lugar.
- Isto não é um “vaso”. É uma ânfora.
- Eu vi esta merda de “ânfora” antes. O que significa que estamos perdidos. Você perdeu a localização da sala. Acabou.
Matar ou morrer. Estava dito. Para todos os fins, aquele insano passeio pela velha Inglaterra iria terminar naquele momento. Swantson olhou fixamente para a Matriarca esperando alguma reação e calculou que a janela mais próxima seria a melhor saída. Não tinha nada em mãos que pudesse usar contra a fantasma. Sendo uma feiticeira, era certo que ela teria muito na manga para usar contra ele. A sua única vantagem é que era parcialmente invulnerável à magia. Uma corrida rápida através da janela, um pouco de vidro na roupa, uma aterrissagem violenta na terra do jardim e uma longa corrida até o portão. Teria que explicar aos seguranças porque estava fugindo da cena do crime, mas era algo que já tinha feito antes. Outro dia voltaria, para acertar as contas. Ou daria um telefonema do aeroporto e contaria ao dono da casa o tipo de gente que tomava chá com ele.
Curiosamente, não viu ódio no olhar da Matriarca e sim desespero. Angústia talvez, sua máscara de autoridade estava desmoronando e, inconscientemente, era ela que recuava. Ele não ia ficar para ver ela tomar uma decisão. Recuou um passo também, mas para tomar impulso.
A porta desapareceu ao seu lado. As paredes se fecharam sobre a porta, engolindo-a por completo. Por onde os dois haviam chegado, existia agora somente uma parede contínua com quadros pendurados. A casa estava se modificando diante de seus olhos. Um violento estalar metálico reverberou pelo corredor e o chão ondulou como se fosse líquido. Ruídos mecânicos de engrenagens mal lubrificadas se desgastando umas contra as outras emanavam do teto. Correntes, grossas e pesadas correntes industriais se chocavam em seus ouvidos. No meio da cacofonia, Swantson ainda conseguiu escutar a voz da Matriarca:
- Isto está errado! A casa muda, mas ninguém vê. Ninguém nunca vê!
Um pedaço gigantesco do teto desceu sobre uma das pontas do corredor, bloqueando completamente o caminho. O peso maciço de toneladas de tijolos teria esmagado quem quer que por puro azar se encontrasse embaixo. O impacto trincou os vidros de todas as janelas. O barulho tornou-se ainda maior e Swantson parou de escutar o que a Matriarca dizia. O tapete sob seus pés desapareceu, absorvido pelo mármore do piso como uma pedra afundando em lama. A Matriarca apontava para algo no outro extremo do corredor, algo que vinha dobrando a esquina da mansão.
Era a Pirâmide. A maldita pirâmide que Swantson segurara em sua mão, separada apenas por um lenço. A pirâmide que respirara em seus dedos, mudando sutilmente de tamanho para cada passo que ele dera naquela sala horas atrás, agora vinha flutuando em sua direção, enorme, do tamanho de um homem adulto. E continuava pulsando, continuava alterando sua forma e suas dimensões. Suas arestas raspavam a parede, riscando os tijolos, derrubando as pinturas de seus lugares.
Esperara tempo demais. Swantson tomou impulso, colocou os braços cruzados na frente da cabeça e voou através da janela em direção ao jardim. Descobriu já no alto que calculara errado o andar em que estavam.
Não muito longe, entre as árvores, uma explosão de chamas perturbava a noite.