Narrativa ficcional inspirada no universo de RPG Naipes Estranhos para GURPS (em desenvolvimento). Vampiros, Fantasmas e um Assassino Serial em uma história de suspense e magia.
Capítulo 50
O jardim tornou-se mudo. Nenhuma borboleta riscava o ar da madrugada, nenhum animal silvestre era visível entre as árvores, o brilho colorido das flores esmaecera, o vento esfriara e as tochas se apagaram. As folhas não se moviam. Em questão de horas, os jardins de Sutterville Dream não eram mais um lugar de paz e celebração. Dylan encontrou o ponto exato em que ele e Lady Flower haviam conversado, muito tempo atrás agora. O arbusto que a pequena feiticeira havia curado estava ressequido, sem folha alguma, provavelmente morto.
Dylan Carmichael acreditava que a maioria dos problemas no Mundo Ausente poderia ser habilmente solucionada com diplomacia
(mentira)
e evitava a violência sempre que podia.
(outra mentira)
Mas agora tinha medo. Sabia o que estava por vir. Compreendia que a Lâmina da Morte seria inútil e precisaria utilizar todos os seus conhecimentos de Magia para permanecer vivo e conduzir o confronto para o Plano Astral. Era sua única chance.
O homem alto e calvo tinha um ancinho em cada mão, as lâminas reluzindo diante de uma luz invisível. Era um jardineiro. E Dylan sabia que ele era mudo. Mudo como o jardim, mudo como o vento inclemente que sopra somente na copa das árvores, mudo como o limo que cresce sobre as lápides nos cemitérios abandonados. Mudo como ATHROPOS. Ele não tem nada a dizer e nem mesmo seu rosto livre de expressões revela o que pensa ou o que sente. O Porteiro pode ter muitas faces, muitas formas, muitas armas, mas todas guardam o mesmo silêncio.
Dylan gesticulou sem pressa, com os olhos firmes plantados no oponente, e enviou a Lâmina da Morte de volta ao seu local de origem. A espada, fatal contra os vivos, não tinha efeito algum contra aqueles que já estavam mortos. Mas o Guia estava preparado: o ancinho que trazia na mão esquerda era para Dylan, uma arma insubstancial, e o outro que trazia na mão direita era uma Lâmina da Morte, para usar contra quem ousasse desafiar seu propósito.
ATHROPOS também não tinha pressa. Não sairia em frenesi caçando todos os fantasmas de Sutterville Dream até que não restasse nenhum. Viera apenas por ele. Não seria a primeira vez que Dylan o enfrentaria, mas ATHROPOS não guardava lembranças nem rancor. Tampouco sentia piedade. Dylan não perguntaria sobre Jennifer porque ATHROPOS não daria respostas.
Dylan sacou um Nove de Ouros, a carta mais alta que tinha, dissolveu sua essência no ar e capturou-a para si. Em fração de segundos converteu a energia mística em um fina lâmina de gelo, afiada como uma navalha, e arremessou o projétil em alta velocidade contra o peito do inimigo. A Adaga de Gelo viajou na mesma velocidade de uma bala de fuzil em uma trajetória impecável. Contra um alvo vivo o dano seria mortífero. Contra um fantasma seria reduzido a metade (era somente a magia concentrada que contava). Contra ATHROPOS foi inútil.
O Guia iniciara o movimento de esquiva no instante em que Dylan iniciou o arremesso. A Adaga passou a centímetros de onde ATHROPOS estivera e perdeu-se na escuridão do jardim. Um relâmpago se formou na ponta do ancinho esquerdo e riscou a distância entre os dois antes que Dylan percebesse que sua Adaga errara o alvo. O impacto elétrico sacudiu o corpo do fantasma como se milhares de farpas incandescentes penetrassem uma carne que ele já não possuía mais. Sentiu espasmos em músculos inexistentes e por pouco não perdeu o equilíbrio.
ATHROPOS poderia ter emendado uma sucessão de ataques. Mas deteve-se. Abaixou as duas armas e esperou. Dylan estava ferido. Muito longe dos níveis fatais, mas definitivamente em desvantagem. Teria que manter seu inimigo a distância, um confronto corpo a corpo seria suicídio; o Porteiro estava melhor equipado e provavelmente saberia usar o ancinho com maestria.
(sobreviver. ferir o desgraçado e subir para o Astral. lá ele perde.)
Uma explosão cortou seus pensamentos e uma nuvem alaranjada de labaredas e enxofre preencheu a pequena clareira. Teleporte. Ninrod e Danov estavam ali. O vampiro empunhava uma espada negra coberta de runas e Dylan não pode deixar de sorrir. A arma do escritor era uma Devoradora, rasgaria o tecido ectoplásmico de ATHROPOS com força ainda maior do que se fosse utilizada contra tecido vivo. Era uma arma criada para matar fantasmas. Ninrod trazia a mesma calibre 12 de antes e, pela segunda vez, abaixou a arma e conjurou uma Bola de Fogo.
Ninrod disparou primeiro. E ATHROPOS esquivou-se com um leve movimento de tronco. Danov girou a espada sobre a cabeça e desceu a lâmina contra o oponente. O Porteiro aparou o golpe com o ancinho direito e centelhas saltaram do choque das armas. O vampiro recuou meio passo e tentou outro movimento, sua espada orientada para cortar o inimigo no meio. O Porteiro interceptou o ataque outra vez e segurou a força do balanço da
Devoradora com sua própria arma. Contra-atacando em uma velocidade que surpreendeu até mesmo o vampiro, ATHROPOS rodou a lâmina do ancinho no punho e, um movimento ascendente por muito pouco não abriu o peito do vampiro de baixo para cima. Danov esquivou-se para trás, vendo a ponta da arma do Guia cortar o ar na frente de seus olhos.
O vampiro era de uma velocidade irreal para Dylan conseguir acompanhar. Infelizmente, ATHROPOS se equiparava. A criatura não perdera a concentração um único instante e, enquanto Danov escapava do golpe, outro relâmpago era disparado dos olhos de ATHROPOS em direção a Dylan.
O raio desviou-se em um ângulo de 45 graus, antes de acertar o fantasma, e explodiu um tronco de árvore próximo. Lascas de madeira voaram e uma mancha chamuscada enegreceu o ponto de impacto. Dylan estava protegido. Seus aliados haviam dado a ele o tempo necessário para se guarnecer dos projéteis do semideus. Ainda era cedo para respirar aliviado: magias podiam ser anuladas com outras magias que podiam ser anuladas por terceiras... Nada era definitivo ainda.
Mais faíscas. Danov precisava atingir ATHROPOS com a Devoradora, para que o Porteiro perdesse qualquer vantagem na batalha e passasse a lutar pela própria vida. Mas a Lãmina da Morte aparava os golpes da espada como se fosse dotada de vida própria. As armas se chocavam pela esquerda, pela direita, em golpes por cima e por baixo. Pareciam se encontrar a todo instante e em todos os lugares ao mesmo tempo. Ninrod buscava um ângulo em que pudesse disparar a outra esfera de chamas que segurava entre os dedos sem risco de atingir o vampiro, mas Danov e ATHROPOS estavam executando um balé intenso e mortal.
Aquela não era a primeira vez de Danov contra o Guia. Vagando pela Europa em busca de mistérios que não lhe diziam respeito, eles já haviam se esbarrado antes. Naquela época a balança pendera para o lado do semideus: Danov era jovem, impetuoso e, se estava longe de ser considerado inexperiente, ainda não se tornara um mestre na espada. Sem a ajuda de Anaconda, Danov teria deixado uma de suas vidas ali nos esgotos de Budapeste. Não pretendia repetir o resultado. Quando entrava em combate, sua mente se concentrava somente no inimigo. Não esperava pela ajuda de aliados, era um de seus defeitos e sabia disto. Era confiante demais. Só tomava ciência dos outros ao seu redor quando suas vidas eram ameaçadas. Neste momento, duplicava seus esforços para derrubar o oponente, triplicava se fosse preciso. Não iria ceder diante de ATHROPOS.
Danov sentiu a magia invadindo seu corpo e sua carne se modificando. Um breve arrepio deu lugar ao ódio. ATHROPOS estava usando magia contra ele! Resistiu com todas as forças e a sensação foi embora.
Ninrod contornou o inimigo e tentou tocar o ombro do Guia. O demônio tinha carregado um encanto na mão: o Toque Mortal. O efeito do feitiço era devastador mesmo para seres imateriais; o Toque Mortal passava por cima de armaduras, rijeza da carne, coletes, limitações físicas de qualquer tipo e pulverizava uma fração significativa da energia vital do alvo. Mas precisava de um contato. Um contato que ATHROPOS não estava disposto a tornar possível. A criatura girou 180 graus e Ninrod sequer conseguiu ver a lâmina do ancinho passando por seu pulso, amputando-lhe a mão enfeitiçada.
Nem a dor, nem o horror pararam Ninrod. Mais do que isto, o demônio blefara. Enquanto ATHROPOS cortava-lhe a mão direita, a mão esquerda liberava a bola de fogo que estivera segurando desde o segundo momento da luta. O projétil atingiu o semideus no meio do peito e atravessou seu corpo insubstancial, inflamando-o por dentro como um tambor de gasolina. As chamas cessaram quase instantaneamente, mas ATHROPOS estava ferido.
Sem esperar que ele se recuperasse, Danov cortou-lhe o pescoço de um único golpe. A espada Devoradora não sentiu a menor resistência, sua lâmina passando como se estivesse cruzando ar e nada mais. Um rastro de energia vital jorrou do ferimento. ATHROPOS não gritou.
A criatura tinha equilibrada na ponta de um dos ancinhos uma outra esfera de fogo, muito mais rubra que aquela disparada por Ninrod. Uma esfera pulsante de calor e magia. Não precisava ser um mago, nem um carteador, para ter a desagradável sensação de que havia muito poder investido naquele objeto irreal.
ATHROPOS não disparou o projétil contra ninguém. A esfera foi displicentemente jogada para o alto, subiu poucos metros e caiu. Quando atingiu o solo, ATHROPOS já havia desaparecido. E a Bola de Fogo Explosiva incendiou todo o jardim em um raio de dez metros.