Naipe Estranhos - Uma Narrativa de RPG O Que é Naipes Estranhos?

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Capítulo 47
Lady Flower escolheu uma cadeira para si, afastada de todos, e sentou-se. Ainda que seus pés infantis não tocassem o chão, ela cruzou as pernas com elegância e postou as mãos enluvadas sobre o joelho. Mantinha a coluna reta e os olhos secos, fixos em um ponto atrás de Pharad. Nada mais estava disposta a dizer, era evidente para todos.

Chinoko se adiantou para falar com Pharad. Fez uma mesura servil, uma cópia exata de centenas de milhares que já fizera vivendo entre vampiros: de aparência adequada para os padrões sociais e absolutamente sem significado no fundo de seu peito. Ninguém jamais percebia a indiferença em seus olhos. Exceto esta noite. Pharad a encarava com cúmplice benevolência e um sorriso conciliador, o oposto da arrogância satisfeita e sorriso superior que ela já se acostumara a receber. Pharad sabia. Sabia e perdoava.

- Filha da China, mulher de muitos atributos, alguns secretos, é bem vinda em meu lar.

- Obrigada. Sinto-me lisonjeada.

- Perdoe, então, minha indelicadeza. Preciso saber onde estava no momento do crime. - a voz de Pharad estava repleta de suavidade.

- Temo que este assunto seja deveras pessoal. Recuso-me a responder.

Um murmúrio contido cruzou a sala entre os presentes. Chinoko não podia ver o que acontecia atrás de si, apenas imaginar o espanto em tantos rostos e o familiar desgosto se formando em tantas mentes. Já fora chamada antes de ingrata, rebelde, indesejada, incômodo, estúpida, tosca, "camponesa", selvagem. E sobrevivera. Mas não recuaria para sobreviver. Chinoko não podia ver, mas Lady Flower sorrira, mesmo sem ter ouvido.

A expressão gentil de Pharad não se alterou por um único segundo.

- Compreendo. Uma vez que a senhora não é uma Carteadora, não seria possível ter qualquer envolvimento com o infeliz destino de Kurt Rontgën. Minha pergunta foi somente uma formalidade relativa às investigações. Espero não ter produzido ofensa.

- Senhorita.

- Como?

- Senhorita, não senhora. Eu não sou casada e jamais fui, Pharad. Tirando este detalhe, não estou ofendida.

- Mil desculpas...senhorita Chinoko.

Desta vez, Pharad inclinou-se diante dela e fez uma mesura. Havia mais do que um gesto ali, não havia dúvidas para ela. Pharad indicava que, apesar de todo o seu poder, ele estava longe de ser prepotente. Dizia aos presentes que ele não estava irritado pela resposta evasiva dela: aumentava a aura romântica construída ao seu redor, a imagem de um perfeito cavalheiro diante de uma dama. Também era um recado para todos aqueles que haviam subestimado o potencial da mulher-tigre, uma mensagem para vampiros e carniçais de que Chinoko não era um "acidente na família". E mais além, era uma desfeita à Comitiva da Faéria, uma prova de que Pharad podia ser gentil, mas tão somente com aqueles que ele se sentisse inclinado a tal e não necessariamente com donos de títulos de nobreza e senhores da guerra. Dizia-se que Pharad podia ser muitas coisas para muitas pessoas. Ela entendia agora.

Mas foi um olhar rápido de Pharad para Nicholas Smith que entregou a Chinoko o mais oculto dos significados. Pharad sabia onde Chinoko passara a noite e aceitava que este assunto "não lhe dizia respeito". Certos assuntos não se tratam em voz alta mesmo no Mundo Ausente. Assuntos de carinho e paz, afeto e lençóis.

Ela se inclinou em resposta, sentindo-se sincera no gesto pela primeira vez em muitos anos.

Chinoko virou-se e viu-se de frente com o mesmo olhar de sempre: ódio e preconceito. Fiodor Rasputin olhava para ela como quem encara algo desagradável que se espatifou no pára-brisa do carro em alta velocidade. O vampiro mantinha os lábios ligeiramente entreabertos e os caninos expostos entre os dentes crispados. Sua respiração era ruidosa.

Ela passou por ele sem olhar uma segunda vez e sentou-se ao lado de Lady Flower.

A voz embaçada do vampiro a seguiu, alta demais para um ambiente daquele nível:

- Não vai me cumprimentar também, mulher? Criatura sem modos...

Chinoko nada respondeu.

Fiodor não falava mais. Bradava para quem quisesse ouvir. Estava alterado, visivelmente embriagado e demonstrava não ter o menor pudor diante de Pharad.

- Eu sou um diplomata. Eu sou adido cultural da embaixada soviética em Londres e exijo o devido respeito de todos. Principalmente dos licantropos.

- Cale essa boca, idiota. Não comprometa a honra de sua Casa mais do que já fez nos últimos meses. - foi a resposta que veio do homem mais poderoso da sala.

Pharad estava em pé novamente. E parecia ainda mais altivo do que de costume. E gritava acima da voz do vampiro.

- Meça seu tom diante de um membro do Concílio dos Cinco e de seus convidados. Meça bem seu tom, se deseja fazer jus a hospitalidade que sempre te acolheu nesta residência!

- Eu... não sabia... não sabia que estava falando tão alto. Peço desculpas, Pharad.

- Vamos imaginar que o "adido cultural" não pretendia ser grosseiro; foi somente um momentâneo exagero na quantidade de álcool no sangue. Algo que seu metabolismo irá resolver em mais alguns minutos, não é?

- Perfeitamente. - o tom de voz já estava normalizado. Mas isto não tornava as palavras de Fiodor mais agradáveis. - Eu apenas desejava um pouco mais de respeito com os poderes em mim representados. De onde eu venho, os licantropos sabem o seu lugar. Não existe bagunça.

- Pouco me importa a forma como seu governo resolve seus problemas internos, senhor Rasputin. Sinceramente, estou pouco me lixando. Mas aqui as leis são minhas e valem para todos.

Fiodor deu uma risadinha, se aproximou do corpo de No Future com passos incertos e colocou a mão sobre a mesa onde jazia a "casca" do homem-lobo.

- Toda esta confusão por causa de um merda como este. Vamos, Pharad, me libere. Se os elfos têm imunidade diplomática, eu também tenho. Até mais do que eles! Não vou responder nenhuma pergunta. Como disse a mulher-tigre ali, "recuso-me a responder".

- Sua impertinência sempre foi de conhecimento de todos, mas sua burrice só apareceu agora. - disse Pharad, calmamente - Vai responder sim, Fiodor Rasputin. Sua pretensa imunidade só tem valor para os laicos e para os tolos. Sua permanência em minha casa só se deve única e exclusivamente a uma gentileza que presto a seus superiores. Não sou obrigado a receber o enviado dos Rasputin quando não é de meu agrado. Não recebi Kerevski quando ele ocupava exatamente o mesmo posto que agora é seu e estou disposto a mudar de opinião a seu respeito.

- Mas...

- Cale a boca, senhor Fiodor. Sem "mas"... Seus superiores ficarão muito desapontados se as portas desta mansão se fecharem para o senhor. Ficarão extremamente desapontados se descobrirem que seu enviado foi o responsável pelo aniquilamento de um carteador diante de um membro do Concílio. Então, se deseja salvar sua pele dos rigores da Sibéria ou de algo ainda pior, sugiro que colabore.

Fiodor ensaiou um princípio de indignação, moveu a cabeça de um lado para o outro da sala em busca de apoio, mas não encontrou um único olhar amigo. Engoliu a raiva a seco enquanto se imaginava onde conseguiria uma boa garrafa de vinho para depois de todo aquele aborrecimento.

- Pharad e todo o Concílio sempre podem contar com a plena colaboração das autoridades soviéticas. Nada tenho a esconder de ninguém. Sou um homem público. - ele molhou os lábios e limpou uma sujeira imaginária da gravata cor de rosa. - Eu passei a madrugada fora da mansão. Kira e eu fomos para Manchester, para um night club. Ela pode confirmar que ficamos dançando e bebendo. Voltamos para cá minutos antes dos serviçais convocarem todo mundo.

Kira adiantou-se do resto do grupo e falou pela primeira vez desde o começo dos interrogatórios. Ela confirmou a história de Fiodor.

Se Pharad percebera qualquer falsidade na história, não deixou transparecer. Satisfeito com o depoimento de sua jovem iniciada, ele fez um gesto casual que dispensava os dois vampiros. Fiodor abriu um sorriso de triunfo, que modificou-se para um leve esgar quando se aproximou de Chinoko ao se dirigir para a porta junto de Kira. Voltou-se mais uma vez para Pharad e utilizou seu tom de voz mais solícito:

- Quer saber quem matou o licantropo? Pergunte àquele americano que veio com a Matriarca. Ele estava com a mão no pescoço do homem-lobo antes da hora do crime e não era uma troca de afagos. Quem é o cara? E, a propósito, onde estão os dois? A Matriarca tem imunidade também ou...

O raciocínio de Fiodor não se completou. No momento em que Kira abriu a porta da biblioteca para sair. Havia uma pessoa esperando do lado de fora.

Jennifer Long.

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