Narrativa ficcional inspirada no universo de RPG Naipes Estranhos para GURPS (em desenvolvimento). Vampiros, Fantasmas e um Assassino Serial em uma história de suspense e magia.
Capítulo 46
O fato do quarto de No Future ser uma réplica exata do seu
foi uma decepção para Swantson. O mesmo luxo clássico
envolvendo uma cama idêntica à sua, com lençóis
brancos e esticados sobre o colchão. Uma porta para o banheiro
com luz fluorescente, um tapete oriental no chão e bibelôs
sobre a penteadeira (não entendia muito de arte vodu, mas pareciam
ser diferentes, ainda que seguindo o mesmo tema). Entrou no banheiro
e abriu a cortina do box: viu azulejos do outro lado, um chuveiro
e uma banheira. Nenhum sinal de uso, nenhum sinal de dimensões
perdidas, somente o odor suave de lavanda e cloro. Examinou o vaso
sanitário e a água no fundo estava mais límpida
do que muita coisa que Swantson já bebera em postos de gasolina
em estradas esquecidas no interior dos Estados Unidos.
Perguntou para a Matriarca se ela tinha certeza de que aquele era
o quarto do licantropo. Ela respondeu secamente que sim. Estava contrariada
e com pressa, mas o que poderia fazer? Precisava de Swantson para
pegar o televisor e ele a convencera que três minutos para dar
uma olhada no quarto não fariam muita diferença. Ela
não tinha argumentos para se opor: uma discussão iria
apenas prolongar o atraso e aumentar as chances de serem encontrados
por algum serviçal da casa.
Ainda que fosse desolador descobrir que Pharad considerara No Future
e Swantson farinha do mesmo saco a ponto de lhes dar quartos iguais,
Swantson estava intrigado. Recolher pistas e investigar não
era seu ponto forte. Nunca gostara nem mesmo dos romances policiais
de Agatha Christie, sentia-se estúpido por não conseguir
identificar o assassino antes do final. E, ultimamente, suas preocupações
sempre foram em esconder pistas, apagar vestígios, desaparecer
na poeira e os outros que tentassem localizá-lo. Considerando
que estava ali naquele momento e não do outro lado do Atlântico
era uma prova de que também não era bom em se esconder.
Porém... até o mais obtuso xerife de cidade do interior
com uma inclinação para o uísque caseiro chegaria
a mesma conclusão que ele: a vítima não passara
a noite ali. Swantson vira o licantropo se movimentando pela casa
em silêncio, ele não era um amador de todo, era uma criatura
acostumada a ser sorrateira. E No Future não usara o banheiro,
nem mesmo se sentara na cama. Quantas vezes ele mesmo não usara
este truque para enganar um agente federal mais sortudo que o normal?
No Future não planejara permanecer no quarto mais do que o
necessário para ter certeza de que tanto Swantson quanto aquele
vampiro de gravata rosa não estavam mais por perto. Com olfato
sobrenatural, a espera não fora muito longa provavelmente.
E que honestidade eles poderiam esperar dele? Conseguira o que viera
obter e abandonaria a mansão antes que a merda atingisse o
ventilador. Mas alguém o encontrou antes que ele pudesse sair.
A "casca" do Ás de Paus fora encontrada no chão,
ao lado da cama. Os seguranças estavam fazendo uma ronda de
rotina no corredor e ouviram ruídos estranhos, mecânicos,
vindos do interior do quarto. Eles bateram na porta e chamaram. Sem
respostas, usaram as chaves-mestra da casa e entraram. Nenhum sinal
de luta. Nada.