Naipe Estranhos - Uma Narrativa de RPG O Que é Naipes Estranhos?

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Capítulo 45
Pharad dirigiu a palavra a Nicholas Smith e perguntou onde ele estava na hora do crime. Visivelmente embaraçado, o Santo gaguejou algo que ninguém conseguiu entender. Pharad pediu que ele repetisse sua resposta. Santos não podem mentir sob qualquer circunstância, o que os tornava as pessoas mais confiáveis de todo o Mundo Ausente. Infelizmente, no estreito círculo de amigos de Danov, não havia um único Santo ou algo que se aproximasse.

- Eu...pre-pre-prefiro não...res-pon-pon-der esta pergunta. Se for po-po-possível.

- Vou reformular a pergunta, Nicholas. Você tem algum conhecimento sobre os fatos relacionados ao aniquilamento de Kurt Rontgën?

- Não, senhor Pharad. Eu nada sei.

- E sobre o paradeiro de Jennifer Long?

- Também não, senhor Pharad.

- É tudo o que nos interessa, Nicholas. Relaxe, ou irá desmaiar. Todo mundo tem direito a privacidade.

- Obrigado, senhor.

Nicholas Smith se sentou em uma das cadeiras da biblioteca e tremia como tivesse saído na mais forte das nevascas sem nenhuma proteção. Até aquele momento, Pharad era o único que estava sentado, os convidados permaneciam em pé mantendo uma distância entre si.

Lady Flower se aproximou de Pharad novamente.

- Você não mencionou a mulher, Pharad.

- Acredito que ambos os crimes tenham a mesma pessoa por trás. Solucionando um caso, o paradeiro dela também se resolve. Creio que...

- Não estão relacionados, Pharad. - Lady Flower tinha realmente o dom de interromper os outros. Danov tinha a impressão de que não havia ligação alguma com o fato de ela não escutar.

- Como pode saber? Como pode ter certeza?

- Peça, Pharad.

- Não!!

Pharad se levantou da poltrona para não encarar os olhos da feiticeira no mesmo nível. Ninrod o seguiu com os olhos e uma expressão muito compenetrada. Danov se concentrou no Demônio, seus instintos despejando adrenalina no seu sistema nervoso e preparando-o para um eventual confronto. A parte racional de seu cérebro afirmava que era impossível acontecer uma luta diante dos olhos de um membro do Concílio dos Cinco, nem Ninrod seria tão seguro de si. Mas uma parte mais antiga de seu sangue ancestral era atraída pela espada e pela resolução violenta: era a mesma parte que desejava pegar Ninrod pelo pescoço e bater contra as paredes, gritar para todos na sala: "Quem? Quem é o culpado?". Sem diplomacia, sem desculpas, sem segredos. Implacável, mas justo. O jogo de intrigas estava durando tempo demais para uma mulher chamada Jennifer Long.

Lady Flower permaneceu impassível, os músculos em sua face tensos apesar da pele jovem. Mas ela não olhava mais para Pharad. Seu olhar gélido estava fixo em Dylan Carmichael.

- Se tem algo a me dizer, fale logo. - a voz de Dylan era um sussurro sofrido, como se suas cordas vocais espectrais estivessem perdendo gradualmente a capacidade de emitir nada além de gemidos lúgubres. - Eu estou pedindo, senhorita Morrison, diga algo.

O rosto da menina se tornou rude e ela inspirou vagarosamente antes de falar:

- Fantasmas não devem se misturar com os vivos. Seu tempo já passou. Mas ainda vejo futuro para a mulher laica.

- Modere suas profecias... - murmurou Pharad, ainda que poucos pudessem ouvir.

- Não é uma profecia, Pharad, você sabe. Nunca são. Eu tive um sonho noite passada, e outro na noite antes e outro na outra noite antes e muitos outros. Antes.

- Onde está minha esposa, por favor...me diga.

- Ela paga agora pelas escolhas que fez. Ninguém escapa do destino. Ninguém escapa.

- Onde ela...

- Você achará a resposta no jardim, senhor Carmichael. No mesmo ponto onde nos encontramos. Nada é casual quando se é uma oniromante. Infelizmente.

- Imagino que este é o momento em que eu deva dizer "obrigado".

- Não diga nada, Fantasma. Esta palavra eu teria um prazer especial em não ouvir.

- Vou enviar meus guardas para o jardim atrás dela - disse Pharad.

- Não, Pharad. - Os olhos de Dylan exibiam um brilho determinado e ele estendeu o braço espectral para Pharad como se realmente pudesse detê-lo fisicamente. Seria impossível, mas o gesto surtiu seu efeito. - Não acho que a visão de uma tropa de licantropos transformados realizando buscas entre as folhagens iria fazer qualquer bem para minha esposa. Eu vou atrás dela.

- Compreendo...

- Ela está viva, não está, senhorita Morrison?

- Nenhuma mulher morria no meu sonho, Fantasma. Aceite um conselho, entretanto: leve Ninrod consigo.

- Você só pode estar brincando! O "Fogo Infernal da Justiça, Paladino Sombrio da Verdade"?! Definitivamente, prefiro ir sozinho.

- Ninrod irá proteger a mulher. E castigar qualquer um que ousou conspurcar sua integridade física ou emocional. É isto o que ele faz. Este é o meu preço, senhor Carmichael. Confie em Ninrod.

Era óbvio para Danov que a situação era desconfortável para todos. Lady Flower demonstrava uma profunda intolerância com o americano, mas fazia o mesmo jogo cênico que ele já vira tantas vezes em outras situações: ela detinha o poder de decisão naquele momento e saboreava cada pedaço dele, ainda que lhe fosse amargo. Ninrod não conseguia disfarçar nem o espanto diante das atitudes de sua mestra (a relação entre ambos não poderia ser mais nítida), nem a impaciência diante da proximidade de um conflito contra um inimigo desconhecido. Danov julgara mal o Demônio: por trás das palavras vazias e gestos juvenis, Ninrod acreditava em si mesmo: iria até as últimas conseqüências para se transformar naquilo que dizia. Isto o tornava ainda mais louco do que se supunha, ainda que se guiasse pela mesma cartilha que Danov usava. Pharad observava a tudo como um jogador que analisa as cartas postas na mesa e tenta prever as tendências do Duelo muitos turnos antes do seu fim. Apesar de toda sua autoridade como membro do Concílio dos Cinco, não tinha o poder sobre o destino das pessoas e nem deveria ter. O Concílio não governava, nem comandava, mas servia e coordenava. E Dylan Carmichael escondia mais do que a fachada de yuppie ianque ostentava: a Magia era muito forte nele, acima do normal daquela encontrada entre os de sua condição. "Quem o convidara?", pensou Danov. Pouco importava. Era necessário agir:

- Se não se importam, eu gostaria de acompanha-los. É evidente que três pessoas podem cobrir uma área maior do que duas. Ou uma. - adiantou-se Danov.

Ninguém esperava que Danov se pronunciasse. Lady Flower sequer o tinha notado antes ou durante a conversa.

- Você é o vampiro que escreve aqueles livros, não é? - perguntou Dylan.

- Peter Danov.

- Minha esposa gosta de você. Vamos os três, então. Eu, você e a "Lâmina Sem Misericórdia da Vingança" ali.

- Vá, Danov, proteja seus leitores! - brincou Pharad. Tudo indicava que o anfitrião não precisaria mais de seu "braço forte" para os interrogatórios

Enquanto os três saíam pela porta principal, em frágil aliança e em silêncio, Danov não conseguia afastar a sensação de que, de alguma forma, representara o papel que esperavam dele. Novamente tentou descobrir se Pharad tinha planejado tudo ou previsto pelo menos em parte o desenrolar dos fatos.

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