Narrativa ficcional inspirada no universo de RPG Naipes Estranhos para GURPS (em desenvolvimento). Vampiros, Fantasmas e um Assassino Serial em uma história de suspense e magia.
Capítulo 44
Swantson estava na metade do cigarro quando a Matriarca atravessou
a porta de seu quarto. Ele deixou escapar um riso tenso de dentes
trincados por entre os lábios crispados e as espirais de fumaça.
Um dos revólveres estava deitado ao seu lado na cama e o travesseiro
estava sujo de cinzas recentes. O capote largado no chão indicava
que o outro já tinha estabelecido seu território e estava
bem a vontade. Matriarca percebeu o sorriso malicioso e as botas sujas
de terra do assassino. Não havia necessidade de cadáveres
por perto: era claro para ela que ele havia matado alguém.
- Ocupado, senhor Swantson? - a voz dela era ainda mais gélida
do que o normal.
- Só imaginando. Se você pode atravessar paredes quando
quiser, por que usar a porta? Velhos hábitos, não é?
- Swantson riu mais uma vez. Não achara graça em momento
algum, ainda mais agora que as lembranças da outra dimensão
iam se transformando em simples Polaroids de viagem e a realidade
da sua vinda até a mansão o atingia como um banho de
água fria. Mas deixá-la irritada era muito agradável.
Era quase um cigarro bem-fumado.
- Não tenho tempo a perder com tolices. Responda, Swantson,
em nome de tudo que possa ser sagrado, por que aniquilaste No Future?!
Deliberadamente ele pegou o Colt de cima da cama e o colocou dentro
do coldre, perto da axila. Tirou os pés sujos de cima dos lençóis
de seda e apagou o cigarro pela metade na parede, amassando-o meticulosamente
e sem tirar os olhos da Matriarca por um segundo. Levantou-se, deu
uma olhada de soslaio em direção a porta do banheiro
e encarou novamente a Fantasma.
- Eu não aniquilei porra de No Future nenhum.
- Onde estavas todo este tempo? Aqui?
- É. Não sai do quarto, se quer saber. E nem vi nosso
"sócio" depois da meia-noite.
- O sucesso de nosso projeto residia nas capacidades de nosso sócio,
senhor Swantson. Agora temo que a operação esteja comprometida.
- Por mim, está ótimo. Foi um prazer trabalhar com a
Secrets & Treasures Inc.
- Não tão cedo. Não tão cedo. Se voltarmos
até a Sala Proibida agora, talvez ela ainda esteja no mesmo
lugar. Nosso acordo permanece, senhor Swantson. E este é o
momento ideal: Pharad e os outros convidados estarão ocupados
demais para perceber qualquer movimentação.
- E onde você estava quando No Future foi aniquilado? Criando
o "momento ideal", talvez?
- Estive com Pharad desde o fim dos rituais. Conversávamos
quando um dos seguranças avisou sobre o destino infeliz do
homem-lobo. Pharad está realizando interrogatórios e
eu disse a ele que iria tentar localizar-te. Não temos muito
tempo, portanto apressa-te. E a casa estará cheia de serviçais
e seguranças organizando buscas pelo assassino.
- Parece que você e Pharad são muito amigos.
Matriarca não mordeu a isca. Ela fez um gesto abrupto com a
cabeça para que ele a seguisse e atravessou a parede desta
vez.
Swantson pegou o capote no chão e vestiu-o sobre o corpo. Deu
uma última olhada na porta do banheiro. Sentiu-se tentado a
sumir novamente naquela zona de guerra, mesmo que tivesse que enfrentar
outra vez mais uma daquelas criaturas. Não fora o Duelo mais
fácil de sua vida, mas qualquer coisa naquele momento era mais
promissora que os planos traiçoeiros daquela fantasma. Swantson
não podia ter certeza se ela estava envolvida ou não
no fim do licantropo: onde três criminosos se escondiam podia
perfeitamente caber mais um, um elemento-surpresa, preparado para
fazer a queima de arquivo. Ele abriu a porta do corredor e saiu atrás
dela.
Estava apostando suas fichas que a Matriarca não fazia idéia
de quem era o assassino de No Future. Se estivesse certo, tinha um
trunfo consigo: a Matriarca não tinha como saber que Swantson
era inocente. Mas, se estivesse errado, ele poderia ser o próximo
da lista a ser aniquilado.