Naipe Estranhos - Uma Narrativa de RPG O Que é Naipes Estranhos?

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Capítulo 43
A esta altura de sua vida, Danov já estava começando a se acostumar com confusões. Tinha percebido que algumas pessoas pareciam atrair situações complicadas e bizarras com mais freqüência do que seria considerado normal. E normalidade fora algo que ele jamais conhecera desde o dia em que nasceu. Eldritch dizia que os Juliots chamavam isto de "magnetismo sobrenatural", o Homem Sem Rosto afirmava que as forças do destino eram caprichosas e tinham suas preferências. Para Danov era uma simples questão de estar sempre no lugar errado no momento em que o mais improvável e grotesco iria acontecer: Dama dos Espelhos, o Regurgitador, Anaconda e a Irmandade Coral e todas as escolhas erradas que ele e seus amigos tomaram em Amsterdã. Nada era simples, tudo se desenrolava em camadas sucessivas de horrores, situações burlescas e desafios que teriam sempre que terminar com a morte de alguém. O fardo era pesado e ainda ficaria em suas costas por pelo menos mais cento e cinqüenta anos, se conseguisse escapar com vida de todas as lutas que vinham a reboque. Nada era simples: para ele viver, outros teriam que morrer e assim seria até o fim.

Sua posição então não poderia ser outra senão a de mais absoluto enfado. Não se sentia habilitado para conduzir interrogatório algum. Não tinha mais estômago para escutar reclamações daquele tipo de gente acostumada a não prestar contas a ninguém, não tinha como separar mentiras de verdades (não mais do que qualquer um, pelo menos). Tinha somente consigo a forte impressão de que todos tinham algo a esconder por algum motivo que apenas eles poderiam saber. Ele era somente o vampiro alto e musculoso atrás de Pharad que carregava uma espada e intimidava as pessoas. Estava sendo usado, sabia disto. Mas se aquele jogo barato fosse necessário para descobrir o assassino do licantropo, então o jogaria até quando fosse conveniente.

No momento estava mais preocupado com Dylan Carmichael e sua esposa desaparecida. O fantasma estava em pé ao lado dele, tentando disfarçar a própria inquietação através de um olhar fortemente inquisidor dirigido a todos e a ninguém em específico. Se ele tivesse o porte e a arma, ele teria se encaixado como uma luva no papel de intimidador e Danov teria lhe entregado a responsabilidade com muito gosto. Danov sabia muito pouco sobre ele: um fantasma que dirigia filmes. Um ilusionista, em essência, especialista em fazer os outros acreditarem naquilo que não é real. Mas sua esposa não pertencia àquele meio e, mesmo com todos os convidados restantes reunidos ali no salão da biblioteca, era possível que ela corresse perigo em algum ponto daquela casa. Danov não podia imaginar tamanho risco: com tudo que vivera, tinha a convicção de que o Mundo Ausente tinha muitas facetas, nenhuma delas hospitaleira e muitas extremamente cruéis. Preferia estar com os empregados, fazendo uma busca.

Ninrod foi o primeiro a falar e seu depoimento foi espontâneo. Ostentava uma espingarda calibre 12 nas mãos como se estivesse em um beco sujo de Londres caçando vítimas, mas Pharad não demonstrou nenhum sinal de que se sentisse ultrajado ou incomodado. Danov percebia, a medida que o Demônio falava, que os convidados de uma maneira geral tinham por Ninrod uma forte repulsa, alguns olhavam para ele como se tivessem encontrado algo desagradável na sola do sapato. A princípio, ele pensou que fosse algum tipo de preconceito tolo, mas rapidamente descobriu que Ninrod era um fanfarrão. Falava de si mesmo na terceira pessoa e usava epítetos como "Protetor de Toda a Virtude", "Chama da Vingança Implacável" e outros tão ridículos quanto longos. Não foi um interrogatório, em momento algum, e sim um monólogo interminável onde ele denegria o passado de No Future e exaltava as qualidades daquele que "finalmente fez cumprir a sina que pairava sobre a alma deste miserável".

- E eu pergunto mais uma vez : por que pranto e comiseração? Não era No Future o carrasco de tantos? Não era ele e sua corja de aliados o temido flagelo das noites londrinas? Quem aqui não ouviu as lendas sobre os Ases Negros e seu reino de ódio e crimes? Ninrod afirma: basta de perguntas e tolices, enterremos a casca do bastardo no mais profundo dos poços e rejubilemos, pois agora só faltam mais três!

- Assume o crime, Ninrod? - a voz de Pharad era um desafio fraco. Tudo indicava que o anfitrião já conhecia a resposta.

- Ninrod nega. O fogo da justiça que se abateu sobre a besta não foi empunhado pelo pulso firme e mortífero do Senhor da Destruição. Outro tomou para si a incumbência que Ninrod não teria desprezado, se a oportunidade se fizesse. Mas juro diante de vós que minha fúria não encontrará descanso enquanto os outros que outrora foram companheiros deste que aqui jaz não encontrarem exatamente o mesmo término, pois Ninrod é o laço que se fecha no pescoço dos injustos, dos profanos e daqueles que enveredam pela senda da desgraça, onde Ninrod está o coração dos impuros gela e sua alma...

- É suficiente, Ninrod. - a voz seca de Lady Flower cortou a frase do Demônio instantaneamente. O domínio que ela exercia sobre ele era total. Danov imaginou que, se Ninrod tivesse sido o culpado, não o teria feito sem o consentimento dela.

Ninrod girou em torno de si mesmo e encarou todos os convidados em desafio. Danov não concordava com a atitude dele e, mesmo sabendo que havia verdade em suas palavras, sustentou o olhar quando os olhos dele pararam nos seus. Era uma mensagem clara de que a criatura não impressionara e nem intimidara o vampiro e que a melhor atitude a tomar seria permanecer quieta. Talvez por causa disto, Ninrod colocou a arma no coldre das costas e recuou um passo, se posicionando atrás da menina.

Mas Lady Flower não era uma menina e fez questão de deixar isto bem claro desde o início.
- Você só precisa pedir, Pharad. Peça e eu verei para você quem é o culpado.

- Acho que vou me ater aos métodos convencionais, senhorita

- O tempo voa, Pharad. Mas eu ainda me lembro quando você não me chamava de senhorita. E não se deixava limitar pelos "métodos convencionais".

Pharad não respondeu. Não em voz alta. Ele apenas moveu os lábios para que ela o compreendesse. Danov não conseguiu deixar de perceber que Lady Flower fora uma mulher muito atraente, seus cabelos louros angelicais e os olhos violáceos agora serviam como contraste sarcástico para sua surdez, sua idade involuída e sua mão esquerda atrofiada. De alguma forma, porém, Pharad conseguira contê-la: ela exibia agora um começo de sorriso onde antes havia somente um par de lábios crispados e palavras fortes.

- Compreendo. Quando estiver disposto a pagar o preço, Pharad, sabe como me pedir.

Havia algo na forma como ela dizia o nome dele que Danov não podia precisar com certeza se era bom ou ruim. Era algo que dizia respeito aos dois somente e ele não tinha qualquer interesse em desvendar. Ainda assim Pharad perguntou a ela onde estava na hora do crime e ela afirmou que estava na companhia de Ferric e a Comitiva da Faéria. Outra resposta que Pharad parecia já esperar.

A Comitiva da Faéria se comportou como seria de esperar: com indignação e petulância alegavam não ter qualquer conhecimento sobre No Future e suas atividades. Pharad cumpriu seu papel diplomático como membro do Concílio dos Cinco e suportou calado as ofensas sutis e as provocações gratuitas e algumas delas vinham daqueles que ele derrotara horas atrás durante os Duelos Rituais. Ferric, de todos, era o único que demonstrava respeito e paciência e confirmou a história de cada um. Como um grupo, os Elfos e Anões haviam permanecido na casa com o único intuito de selar acordos, consumir mais um pouco da adega de Sutterville Dream e cogitar planos para o jovem Ferric quando ele voltasse para seu mundo. Ninguém foi claro sobre o que conversou com Lady Flower e tentar extrair esta informação deles seria irrelevante e custoso demais. Pharad tinha obrigações para com todos e a influência de Lírio Gelado no Concílio determinava a melhor acolhida possível para os exilados da guerra.

Danov permaneceu impassível para evitar incidentes. Não estava ali para provocar a raiva indignada daqueles ricos senhores de terra e castelos: conhecia o estilo de viver de quem estava acostumado a ser sempre servido e até reverenciado. Era um povo que se irritava com facilidade, mas que não tinha fibra suficiente para encarar um combate de morte, muito menos para aniquilar. Definitivamente nenhum daqueles aristocratas com seus perfumes exóticos, suas roupas de seda, suas jóias majestosas, sua legião de lacaios que faziam a guerra por eles a uma dimensão de distância e suas preocupações pueris com títulos e brasões poderia ter invadido o quarto do licantropo na calada da noite e o aniquilado. Era o trabalho de um assassino. Como Danov temia se tornar.

Exceto pela escolha final, o que acontecera com No Future não era diferente do que acontecera com tantos antes que cruzaram o caminho de Danov. A trilha de sangue que o vampiro deixara atrás de si poderia muito bem ter incluído mais este. Seria este o motivo de Pharad tê-lo escolhido como assistente? Impressionar o verdadeiro assassino com outro tão mortal quanto, ainda que a contragosto. Se esta era a imagem que Pharad tinha dele, Danov era culpado em grande parte: herdara a falta de piedade da família, mas tinha a providência de direcionar sua ira somente aos culpados. Justo, mas implacável.

A Comitiva retirou-se do salão antes que os interrogatórios terminassem. Tão logo o último Anão respondeu a última pergunta e Pharad permaneceu calado, o grupo inteiro fez um mesura rápida e saiu pelas grandes portas de madeira que dominavam o ambiente. Não foi feita nenhuma tentativa de impedi-los. Não permaneceriam na casa por muito mais tempo, apenas o necessário para providenciar transporte para outro lugar onde poderiam continuar reunidos fazendo comentários maliciosos sobre a hospitalidade humana.

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