Narrativa ficcional inspirada no universo de RPG Naipes Estranhos para GURPS (em desenvolvimento). Vampiros, Fantasmas e um Assassino Serial em uma história de suspense e magia.
A voz urgente vinha do meio dos livros e colocou Danov em guarda.
Sem parar para pensar, ele buscou se posicionar a frente de Pharad,
para dar proteção. Mas algo naquele tom de voz estava
mais próximo do medo do que da ameaça.
Dylan Carmichael atravessou a estante mais próxima com incrível
velocidade. Era óbvio que o fantasma entrara correndo na biblioteca,
passando por tudo que estivesse em seu caminho, abandonando qualquer
ilusão de vida "normal" que estivesse tentando criar.
Para ele, manter as aparências era uma preocupação
constante em seu dia-a-dia (mas não era assim com qualquer
um em Hollywood?) e lembrar de sua condição imaterial
era resultado de um esforço consciente.
Estacou diante da "casca". E dos olhos espantados de um
vampiro e de um feiticeiro.
- Estou com um mau pressentimento aqui. Um pressentimento muito, muito
ruim. - tentava soar displicente, mas sua voz tremia.
- Boa noite, senhor Carmichael. É o primeiro a chegar. Eu diria
até que veio rápido demais, um tanto quanto...abrupto.
- falou Pharad, pausadamente.
Dylan desviou os olhos de No Future. Danov reparou que ele estava
bastante assustado e, se estivesse vivo, estaria com a respiração
presa. "Suando frio" também era uma expressão
que poderia se adequar, embora não literalmente. "Você
só pode saber o que um fantasma pensa pelos seus olhos e, às
vezes, nem assim", pensou Danov. Dylan fez o gesto mecânico
de umedecer os lábios e se explicou:
- Peço desculpas pela minha entrada. Mas meu assunto é
urgente.
- Há muitos assuntos urgentes em andamento esta noite, pelo
o que eu vejo. - disse Pharad.
- É sobre minha esposa. Ela desapareceu de nosso quarto e não
consigo encontra-la em lugar algum. Por favor, Pharad. Ela é
laica!
- Eu a conheço. A atriz Jennifer Long, encantadora. - Pharad
se comportava como se estivesse conversando com amigos em um chá
de caridade. Considerando o grau de tensão em que estava minutos
antes, Danov não sabia o que achar.
- A mulher pode estar correndo perigo neste momento, Pharad. Temo
que a mansão não seja mais segura para ninguém.
- afirmou Danov - Precisamos tomar providências urgentes ou
outros podem se ferir!
- Eu não chamaria um aniquilamento de ferimento, Danov. Há
forças estranhas em andamento nesta casa e, por um momento,
pensei ter compreendido, mas estava errado. - Pharad estava novamente
sério, ainda que parecesse estar escondendo algo.
- Há pessoas sendo aniquiladas aqui e eu quero saber onde está
minha esposa! Agora!!
Pharad se levantou da poltrona onde permanecera sentado todo o tempo.
Não era alto, mas era bastante altivo e tinha um olhar duro
encaminhado para Dylan. O fantasma havia gritado para um membro do
Concílio dos Cinco, em sua própria residência,
sem medir palavras. Mais do que isso, havia feito uma exigência.
Danov já vira seu avô machucando carniçais por
muito menos e sua família raramente toleraria este comportamento
de um convidado. Mas ele também aprendera que os valores fora
do castelo eram mais flexíveis e que certos protocolos poderiam
(e até deveriam) ser quebrados.
- Senhor Carmichael... eu lhe dou minha garantia pessoal que mal algum
será feito contra sua esposa. Pode contar com todo o apoio
que estiver ao meu alcance e, antecipadamente, peço desculpas
por qualquer incômodo que possa ter ocorrido.
- Não quero parecer impertinente, Pharad, mas não vejo
muita segurança por aqui. - o dedo de Dylan apontava para No
Future. - E, eu posso ser um ianque mal-educado que não entende
nada destas formalidades européias, mas tenho a impressão
que não vai pegar nada bem esta história toda para o
Concílio.
- Os assuntos de minha propriedade não são assuntos
do Concílio. E você está certo: você não
entende nada destas formalidades. Mas, se continuarmos discutindo,
nada descobriremos.
Dylan sossegou por alguns instantes, o tempo necessário para
Pharad entrar em contato com seus servos e organizar uma busca. Ou,
pelo menos, foi o que pareceu para Dylan: Pharad falou em voz alta
com alguém que não estava na sala, executando uma magia
de comunicação com a mesma trivialidade de quem pega
um telefone. Quando o outro concluiu, Dylan voltou ao ataque:
- Você conhece uma fantasma chamada Deborah Swantson?
- Não.
- Pois ela entrou na festa. Eu encontrei com ela duas vezes nesta
noite e ela me disse que ATHROPOS está aqui também.
Como você me explica isto, Pharad?
- Não tenho explicações.
- Eu vi Deborah pela janela do meu quarto e saí para ver o
que ela tinha para me dizer desta vez, mas ela sumiu no ar. Procurei
nos jardins e nada. Quando eu volto para meu quarto, minha esposa
não estava mais lá. Meu deus, ela não sabe de
nada! Ela não tem como se defender neste mundo...ela...
Pela primeira vez, Danov viu um fantasma desabando. Não era
nada diferente de um ser vivo, a cabeça abaixava, a voz sumia
e toda a força se convertia em desalento. Não havia
lágrimas, porém. Mas o sentimento era rigorosamente
o mesmo. Dylan agora estava calado e assim ficaria até o primeiro
dos demais convidados chegar.