Narrativa ficcional inspirada no universo de RPG Naipes Estranhos para GURPS (em desenvolvimento). Vampiros, Fantasmas e um Assassino Serial em uma história de suspense e magia.
Capítulo 40
Pharad recebeu Danov na Biblioteca. O empregado que o levou até
ali não revelou o motivo de tão tardia convocação,
mas ele podia perceber sinais de apreensão no caminhar do carniçal
e uma certa pressa. Eles passaram por mais corredores do que ele se
lembrava e entraram em um salão que não tinha visto
antes.
Era a mais vasta coleção particular de livros que Danov
jamais conhecera, organizados em uma longa fileira de estantes altíssimas
e ordenados segundo critérios que só fariam sentido
para seu dono. A proximidade de tanta madeira o incomodou a princípio,
mas as possibilidades de conhecimento ali contidas eram infinitas
e ficou imaginando quanto tempo levaria para ler cada um daqueles
volumes. Seria mais tempo do que até ele teria de vida. E seria
mais informação do que qualquer um poderia assimilar
e permanecer são. Estava reunido ali não apenas edições
raras de livros proibidos, mas também compêndios de outras
dimensões escritos em línguas que desafiariam qualquer
pesquisador, pergaminhos amarelados estocados dentro de urnas ricamente
ornamentadas, manuscritos originais de obras faéricas doados
por Lírio Gelado e muito, muito mais.
Danov desconfiava que o carniçal fora instruído a fazer
o caminho mais longo por entre o labirinto de estantes por puro orgulho
de Pharad. A biblioteca do patriarca Kravmore não ocuparia
mais do que um décimo daquele salão.
Mas quando chegaram até Pharad, Danov entendeu o real motivo
de tudo aquilo: deitado em macabra imobilidade sobre uma mesa de jacarandá
estava uma "casca", o corpo sem alma de um Carteador aniquilado.
Era o que restara de um jovem doentiamente magro, de cabelos verdes
e brancos e tatuagem no braço direito. A "casca"
de No Future, dentro dele, onde deveria haver uma nítida energia
pulsante fornecida pela Fonte, Danov via somente o mais absoluto vazio.
A vítima estava além de qualquer força conhecida
e jamais levantaria.
Pharad estava sentado em uma poltrona de couro moderna, olhando fixamente
para a "casca". Havia vincos na sua testa e ele estava muito
mais velho desde a última vez que Danov o vira, algumas horas
atrás. Seu olhar trazia uma igual combinação
de perplexidade e melancolia.
Enquanto o carniçal se afastava para cuidar de outros afazeres,
Danov analisou o corpo e não viu nenhum sinal de violência.
Talvez a vítima fosse dotada de Fuga Astral, mas Danov acreditava
mais na hipótese de Duelo. Fosse quem fosse o aniquilador,
ele tinha induzido o outro a um Duelo Astral que terminara da pior
maneira possível. Danov repudiava este tipo de resultado e,
mesmo já o tendo praticado algumas vezes ao longo da vida,
o reservava somente para os piores inimigos, aqueles que ultrapassavam
sem chance de retorno todos os limites da humanidade e da razão.
Era uma solução extrema demais, definitiva demais e
prejudicial para quem a praticava. O aniquilador sempre ficava com
uma carta a menos em sua Seqüência, o número máximo
de cartas que poderia evocar de uma única vez. E quanto menos
cartas, mais próxima se tornava sua própria e última
morte.
- O Nome dele era Kurt Rontgën, nasceu na Polônia
em 1919, mas fugiu com a família para a Inglaterra antes dos
nazistas invadirem o país em 1939. Era um Homem-Lobo, mas sua
natureza só despertou no ano seguinte. - disse Pharad em uma
voz arrastada que era um semi-sussurro.
- Quem fez isto? - Danov manteve o mesmo tom de voz, como se
ambos temessem perturbar o sono de uma criança. Mas havia uma
nota de raiva na voz do vampiro.
- Usava atualmente a alcunha de No Future. E foi aniquilado
em minha residência... - a raiva que emergia na voz do anfitrião
se revelou mais profunda do que Danov esperava.
Pharad olhava agora Danov nos olhos e o peso da idade já não
caía mais sobre seus ombros: fora substituído por um
fogo de fúria cuja origem não estava na destruição
do senhor Kurt Rontgën, mas na audácia do ato ter sido
cometido debaixo de seu teto. A princípio, Danov sentiu desprezo
por tamanha insensibilidade. Travou os dentes para não dizer
nenhuma palavra que ofendesse seu anfitrião, mas deixou claro
suas emoções em seu rosto.
- Não me olhe desta forma, Danov. Ou devo voltar a chamá-lo
de senhor Danov? No Future era uma erva daninha, isto qualquer um
pode atestar a seu respeito, e cedo ou tarde iria pagar por seus crimes,
aqui, em Londres, em algum lugar. Sinto pena por tamanho desperdício
de dons e de vida, sem dúvida. Mas já sentia isto por
ele muito antes de sua aniquilação... - Pharad parou
por um instante, tomando fôlego e então prosseguiu.
- Minha maior preocupação no momento é
averiguar quem ou o quê foi o responsável por este ato
em minha casa. E garantir a segurança dos que aqui ainda estão.
Para isto eu o convoquei até aqui.
- Não imagino como eu poderia ser útil. Nunca
vi este homem em toda a minha vida.
- Justamente por isto, Danov. De todas as pessoas aqui presentes,
você é a mais isenta de culpa e a mais imparcial. Preciso
de seu apoio para os desagradáveis, mas necessários,
interrogatórios.
- Interrogatórios?
- Precisarei interrogar cada um dos convidados que permaneceu
na casa após a meia-noite e cada um de meus empregados. Alguns
deles podem se sentir ofendidos ou pouco cooperativos, mas é
imperativo que um culpado seja encontrado. Terei que descobrir se
Sutterville Dream teve uma invasão ou se o crime foi cometido
por alguém de dentro.
- Então, comece por mim. Interrogue-me, Pharad.
- O que imagina que eu perguntaria?
- Onde eu estava quando o aniquilamento aconteceu, por exemplo.
- E onde você estaria, por acaso?
- Em meus aposentos, como Kira poderá confirmar.
- Imagino, então, que vocês passaram um aprazível
tempo juntos.
- Imagine o que quiser. Minha consciência permanece limpa
de todo e qualquer evento funesto nesta casa.
- O que você e Kira fizeram em seu quarto depois da meia-noite
pouco me importa, Danov. Mas, como eu previra, você é
absolutamente inocente. Em vários sentidos.
Seguiu-se um silêncio que Danov não podia precisar se
era incômodo ou cúmplice. Pharad se fechara novamente
e tentar entender que tipo de pensamentos corriam por trás
daquele olhar baixo e envelhecido era perda de tempo. Danov tinha
somente a sensação de que a "festa" caminhava
de um fracasso total para um incidente desagradável e seus
instintos lhe diziam que a possibilidade de um conflito antes do raiar
do Sol não podia ser levianamente descartada. Pela primeira
vez naquela noite, considerou acolhedor o peso da espada na bainha
em suas costas. A espada do Assassino cruzara continentes com o vampiro
e fora decisiva em momentos de selvageria que preferia não
lembrar.
-Você diz que não acredita que eu tenha coisa
alguma a ver com isto. Tem suspeitas a respeito de alguém,
Pharad? No Future tinha inimigos?
- Como membro do Concílio dos Cinco eu não devo
ter suspeitas da culpa de ninguém. Eu devo ter provas, Danov,
provas. E No Future tinha muitos inimigos, alguns capazes de fazer
isto.
- Algum deles está aqui?
- É o que pretendo descobrir em breve. Meus criados
já foram convocar os outros convidados e logo eles estarão
aqui.
- Você mencionou a possibilidade de uma invasão.
A mansão já foi violada no passado?
- Nunca desde que eu assumi a propriedade. Mas esta casa tem
muitas portas cuja chave eu não possuo e temo que ninguém
jamais possuiu. Portas que abrem pelo lado de dentro na hora em que
querem e depois fecham para nunca mais abrir. Este lugar já
foi a ruína de homens de bem. - Pharad virou-se para o cadáver
e concluiu - E alguns que não valiam muita coisa também.
Danov não conseguia sentir raiva ou indiferença diante
do corpo vazio do licantropo. Apenas uma suave tristeza e uma insistente
dúvida se ainda veria outros destes naquela casa.