Narrativa ficcional inspirada no universo de RPG Naipes Estranhos para GURPS (em desenvolvimento). Vampiros, Fantasmas e um Assassino Serial em uma história de suspense e magia.
Capítulo 39
Swantson não conseguia parar de pensar em seu filho Cristopher.
O moleque aos sete anos já era completamente obcecado pela
Segunda Guerra Mundial e não perdia um único documentário
que passasse na televisão. Ele sempre censurava os mais pesados,
não queria que o garoto aprendesse cedo demais sobre coisas
como Treblinka, o Gueto de Varsóvia e o destino final dos filhos
do Hitler, mas o resto ele simplesmente adorava: o Dia D, a Batalha
da Inglaterra, os Afrikankorps, Stalingrado, o fiasco da Linha Maginot.
O menino devia saber mais sobre o assunto do que o professor de História
do primário. Cristopher preferia o aspecto europeu do conflito
e não dava muita bola pra Pearl Harbor e toda aquela patriotada
ianque no Pacífico. Hiroshima e Nagasáki eram assunto
proibido, obviamente.
Em alguns documentários apareciam as cidades bombardeadas pela
aviação de guerra. Tanto Dresden quanto Londres eram
provas vivas de que aquele fora o conflito onde as forças aéreas
tornaram-se decisivas, era o que Cristopher costumava dizer. Swantson
pensou que ele fosse se tornar um piloto de caça quando crescesse.
Não tinha nada contra, era uma profissão digna como
outra qualquer. Mas Cristopher estava começando Direito, foi
o que a mãe de Swantson contara em sua última carta.
O menino Cristopher teria adorado aquele lugar: parecia que todos
os malditos bombardeiros do universo tinham passado por ali e jogado
tudo que tinham. Não havia um único prédio intacto
ou mesmo com mais de três andares acima do solo. Fragmentos
de tijolos, janelas e tubulações se empilhavam no meio
de ruas onde não era mais possível distinguir onde começava
o asfalto e terminava a calçada de pedestres. Pedaços
de ferro retorcido pendiam de estruturas que pouco lembravam viadutos
no horizonte. Aqui e ali era possível enxergar o que restara
de um carro enterrado debaixo de toneladas de poeira e restos de azulejo.
Não se ouvia um único suspiro. Ou o troar de bombas
em alguma cidade vizinha. Nada. A guerra passara por ali e se fora.
Swantson atravessara o portal e quando olhou para trás viu
o banheiro de seu quarto delineado por uma parede chamuscada na lateral
de um prédio-fantasma. Encontrara uma ótima forma de
abandonar aquela confusão toda e sair pela tangente: ninguém
iria procura-lo em uma dimensão paralela apenas para roubar
uma televisão velha. Exceto que aquela era uma dimensão
bem acessível e a televisão deveria ser bem valiosa,
então talvez a Matriarca mexesse aquele esqueleto morto atrás
dele, afinal. Restou, então, a curiosidade.
Apesar do odor quase subliminar de sangue no ar, Swantson não
encontrou nenhum cadáver enquanto caminhava entre o entulho.
Ninguém vivo, tampouco. Nada vivo, para ser mais específico:
o pouco capim que emergia em esparsos pontos estava amarelado e gasto,
nenhum pássaro voando no céu ou mesmo um cachorro vadio
vasculhando o lugar em busca de comida.
Andou por cerca de duzentos metros absorvendo os detalhes. Sentia-se
vulnerável com tantas posições propícias
para esconder um franco-atirador ou ocorrer uma emboscada, mas ao
mesmo tempo tinha a sensação que estava só, como
nunca estivera. Viu restos de postes telefônicos emergindo por
entre as pilhas de escombros como árvores de um mundo morto.
Pisou em um pequeno lago de estilhaços de vidro que provavelmente
haviam caído das janelas do prédio a sua esquerda, como
se algo houvesse explodido de dentro dele. Ouviu o som de seus próprios
passos sobre o tapete quebradiço e notou como aquele som se
espalhava em todas as direções tentando preencher aquele
imenso silêncio. O odor que vinha com a brisa não tinha
origem nem fim, mas embrulhava seu estômago de maneira gradual.
Swantson estava acostumado com mortes, mais até do que desejaria,
mas não estava preparado para nada em tal escala.
Se flagrou pensando em radioatividade, nos documentários sobre
as bombas atômicas que ele não deixava seu filho ver,
mas assistia sozinho no escuro da sala. Os sinais de destruição
eram claros e a radiação invisível. Temeu estar
caminhando em direção ao ground zero, o ponto de impacto
onde o próprio chão estaria vitrificado e ele começaria
a vomitar até a morte. Pensou no relógio de Hiroshima,
congelado para sempre no mesmo amargo instante.
Decidiu voltar. Já brincara demais de "aventureiro de
mundos estranhos", estava na hora de encarar novamente seus problemas
reais: Matriarca e sua Treasures e etc. Que Pharad ou outro qualquer
descobrisse o mistério daquela cidade e depois contasse para
ele. Ou não.
Quando ele se virou, o homem estava lá.
Swantson soltou um palavrão e seus dedos correram instintivamente
para o coldre da arma.
O homem não era nem alto nem baixo, nem magro nem gordo. Em
uma multidão, não seria notado. Ali, parecia estar debaixo
de holofotes. Vestia jeans, uma camisa branca sem estampas e sapatos
limpos. Sapatos limpos como se nunca tivesse pisado em escombro algum,
Swantson percebeu. Cabelos negros bem penteados, um rosto trivial
e olhos inexpressivos, era a imagem de um homem branco comum das grandes
cidades. Exceto que aquela não era mais uma grande cidade.
Era um grande amontoado de concreto e vigas de ferro retorcido, assolado
pelo onipresente cheiro de gente morta.
O homem não demonstrava estar assustado com a visão
dos coldres de Swantson. Para ser franco, o homem não demonstrava
coisa alguma. Apenas permanecia em pé ali, entre o assassino
e o portal de volta para o banheiro e suas luzes fluorescentes. De
volta para o cheiro bom de desinfetante de pinho, toalhas macias e
sabonete líquido. Swantson não se deteve e puxou um
dos revólveres. Manteve o cano baixo, apontado para o chão,
mas não tirou os olhos do estranho. Que, no entanto, não
esboçou um única reação. Estaria em choque?
"Não é humano." O pensamento cruzou o cérebro
de Swantson mais rápido do que a idéia sobre bombas
atômicas, seguiu pelo feixe de nervos de sua espinha, desviou
para o braço e chegou até a mão que segurava
a Colt. O cano agora apontava direto para a cabeça do estranho
e a outra arma já estava sendo sacada. O segundo pensamento
foi ainda mais rápido e ordenava "fogo!". Swantson
se entregou a seus impulsos, confiando que não estaria errado
e atirou para matar.
O primeiro projétil foi preciso, como não poderia deixar
de ser, penetrando pela testa do estranho, dois dedos acima do ponto
mediano entre os olhos, e saindo pela parte de posterior da cabeça.
Sem sangue algum. Acima do estampido, ele conseguiu escutar o barulho
do pescoço se partindo com o impacto, quando a cabeça
foi jogada para trás em alta velocidade.
Mas o homem de pescoço quebrado não caiu. Por um segundo,
com as duas armas já apontadas e preparadas, Swantson hesitou.
Logo em seguida não havia mais um homem em quem atirar.
A coisa assumiu a forma de uma mandala tridimensional flutuante, composta
de inúmeros cristais poliédricos sustentados no ar por
alguma força desconhecida. E era um Carteador, fosse o que
fosse. A metamorfose foi rápida e nem um pouco orgânica,
como um filme acelerado editado por um esquizofrênico.
O'Brien havia prevenido Swantson que ele tinha uma dádiva muito
peculiar, que poderia se tornar um transtorno se ele não se
adaptasse. Primeiro Swantson pensou que ele estava falando do presente
de Anúbis ou daquela bizarra peculiaridade de suas mãos,
mas no final o operativo do Panopticum apenas queria dizer que ele
tinha algo chamado de Fuga Astral, um dom que poucos Carteadores possuíam.
Fuga Astral significava que confrontos físicos entre ele e
outros Carteadores resultavam em confronto espiritual mais rápido
que o normal. O normal para aquela gente era que um combate não
fosse para o astral ("subisse", como eles gostavam de dizer)
antes que um dos oponentes estivesse bastante ferido no mundo físico,
quando a transferência aconteceria automaticamente. O'Brien
estava falando de briga de rua, combate sem nenhuma frescura de "honra
entre cavalheiros", o tipo de merda cotidiana quando você
cruza o caminho dos Carteadores errados: dois vampiros ou dois homens-qualquer-coisa,
ou quaisquer outros seres estranhos tinham um desentendimento grave
resolvido com socos, tiros, facadas e outras gentilezas. Mas o combate
final seria sempre em uma das Esferas Astrais.
Para Swantson não era assim. Para ele, bastava que um Carteador
lhe acertasse um único chute bem dado ou lhe enfiasse uma agulha
de costura e a transferência acontecia. Como seu amigo lhe explicara,
era uma dádiva se você fosse melhor com cartas do que
no mano a mano. Não era o caso de Swantson. Ele preferia resolver
tudo por aqui, não apenas por que era especialista em armas
de fogo, luta e machado. Mas porque gostava mesmo.
Não teve escolha e nem sentiu o dano que a coisa lhe infligira.
Quando se deu conta, estava duelando em uma Esfera Astral com um inimigo
desconhecido.