Naipe Estranhos - Uma Narrativa de RPG O Que é Naipes Estranhos?

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Capítulo 37

Felizmente não era inverno. Chinoko sempre teria dúvidas sobre seu sucesso se fosse inverno. Suspeitaria que talvez sequer ousasse tentar. A pálida vastidão gelada da Sibéria, onde céu e terra se confundiam na mesma teia mortífera, era um desafio ao qual poucos se atreviam.

O vento do verão siberiano, entretanto, não era tão clemente quanto se poderia imaginar. Ele se espalhava selvagemente por quilômetros de solidão sem encontrar obstáculos, exceto o corpo frágil e miúdo de uma moça chinesa de 16 anos. Era um vento seco, carregado de minúsculas e afiadas navalhas de frio, soprando, uivando em seus ouvidos hora após hora. Ás vezes rude o suficiente para obriga-la a se curvar e proteger com seu calor o pequeno fardo que carregava. Ás vezes sutil e insidioso, penetrando em seus pulmões como uma infestação que se alastrava, transformando sua carne lentamente em gelo e sua força em nada.

As pernas de Chinoko estavam rijas e parcialmente entorpecidas e cada passo exigia de si um esforço de vontade tão profundo quanto a camada de neve onde seus pés afundavam para, aparentemente, nunca mais emergir. Mas emergiam, sempre havia o próximo passo, principalmente depois que a dor cessara de chegar até seu cérebro. Chinoko atravessava a Sibéria e chegara a um ponto onde não conseguia mais saber a diferença entre de onde viera e para onde estava indo.

Apesar de tudo, Alekssandri sorria. Alheio ao vento, ao frio, a pontos cardinais e tudo mais que não fosse seu precioso alimento, o pequeno vampiro sorria enrolado em várias camadas de pano que o protegiam de seu único inimigo, o Sol. Chinoko podia sentir, não era muito e dificilmente seria fatal em outras circunstâncias (mesmo para um humano), o vampiro estava drenando suas energias, um pouco de cada vez.

Não podia culpa-lo: ela mesma se sentia faminta naquele momento e a comida que havia trazido não durara mais do que dois dias. Seus lábios estavam ressecados e rachando, algo que os anciões haviam lhe prevenido que sempre seria um sinal de doença. Um Homem-Tigre nunca fica ferido. Mas o esgotamento eminente estava claramente levando sua regeneração a falhar em certas partes. Tinha medo de tirar as meias e olhar para seus dedos. Tinha medo de parar e não conseguir levantar.

Era a noite do quinto dia quando ela foi encontrada. Apesar de estar acordado, o bebê Alekssandri não chorava, apenas sorria. Mais tarde Chinoko descobriria que crianças vampiras raramente choram. Ela chorava, lágrimas de desespero enquanto seu coração tinha certeza de que iria morrer ali no meio de lugar algum, centenas de quilômetros distante de seus pais e de seu irmão. Sua jornada tinha se tornado um gesto inútil de coragem, o fracasso que seus medos mais ocultos insistiam em afirmar que seria. Ainda assim ela tentou correr: sem forças sequer para andar, Chinoko tentou correr. O que para uma pessoa normal seria nada mais que um rastejar patético, para a energia que ainda restava em seu corpo de mulher-tigre se transformava em uma marcha acelerada.

Uma patrulha soviética de três soldados a perseguia. Se movimentavam rapidamente em trenós motorizados. Dois deles eram humanos. O terceiro, não.

Quando o barulho dos motores se tornou próximo demais, ela parou e encarou. Seus olhos vasculharam a vastidão da noite em busca de algo que pudesse usar em seu favor, uma pedra, um galho, um olhar amigo, mas nada encontrou. Reuniu os últimos sopros de vigor que guardara da corrida e transformou-se. O rugido felino foi mais alto que o som das máquinas.

Os soldados pararam seus trenós a dez metros da coisa que era Chinoko. Não pareciam especialmente assustados diante da visão da Mulher-Tigre em toda sua glória. De qualquer forma, mesmo em estado licantrópico, Chinoko não era mais alta que o mais alto deles. As garras longas e encurvadas deveriam ser uma ameaça contundente, mas eles tinham fuzis Kalashnikov e não hesitaram em aponta-los para ela. Não havia tremor em suas mãos mais do que seria normalmente provocado pelo frio. O terceiro soldado olhava para ela com um começo de fúria se formando em seus olhos.

Chinoko delicadamente removeu o pequeno Alekssandri de suas costas e o colocou no chão, ajeitando com carinho as mantas que o envolviam, embora duvidasse que a criança vampira sentisse frio da mesma forma que ela. Então, virou-se para a patrulha e rugiu novamente.

O terceiro soldado riu bem alto e ordenou algo para os outros, palavras ríspidas pronunciadas no hediondo idioma do povo que tanto mal já havia feito ao seu povo. Os outros soldados abaixaram seus rifles.

O olhar dela se fixou no dele por alguns momentos e ela percebeu o que estava por vir. Ele era (ou fora) da Patrulha Siberiana, um Matador de Tigres da fronteira sino-soviética. Um Homem-Urso renegado que dera as costas para o Conclave e aceitava as normas do Partido Rasputin como se fossem sua nova tábua sagrada. Seus avós contavam sobre tempos difíceis quando pelotões de assassinos cruzavam a neve no inverno se aproveitando do tempo ruim para saquear e matar. E de como a maré se alterava no verão e os tigres faziam o caminho contrário para dar o troco. E, mesmo agora, com todos os tratados escritos publicamente pelos homens ou assinados em segredo pelas feras, a situação na fronteira era de eterno ódio, eterno confronto.

O Homem-Urso desabotoou e removeu o uniforme, expondo seu peito nu ao tormento da neve soprada pelo vento. Desafivelou o coldre da pistola e deixou cair no chão. Sem tirar os gélidos olhos azuis de Chinoko por um único segundo. Ele tinha uma bainha de faca próxima a uma das botas. Puxou uma Kukhri nepalesa, herança de alguma batalha anterior. Ela sentiu o cheiro da prata no ar. Era uma arma de matar licantropos, confeccionada do lado dela da fronteira, uma memória daqueles tempos ruins. Sua lâmina curva refletia somente o branco da tempestade que se intensificava. O soldado não se transformou, não precisava exibir sua verdadeira forma para intimidar a jovem chinesa. Seu rosto rude e sem viço carregava a experiência de mais combates do que ela jamais ouvira falar.

Ainda assim ela atacou primeiro. Os poucos ensinamentos de seu irmão voltaram à sua mente com total nitidez: "ninguém é mais rápido que nós, ninguém é mais forte. Não prolongue a luta!". Ela saltou quatro metros acima do solo em direção ao soldado, suas garras completamente estendidas. Não sabia que estava gritando durante o salto até que a dor calasse sua voz e o gosto amargo da neve misturada com seu sangue enchesse sua boca. Ela não fora a primeira a saltar em ataque direto contra o Homem-Urso e, se alguma vez esta estratégia funcionara, sua regeneração não guardara cicatriz alguma. Ele desviou para o lado no último instante e sua Kukhri beijou o rosto de Chinoko com cálida suavidade. Uma linha marcada com prata que jamais a abandonaria.

Ele permaneceu de pé ao lado dela, de uma distância segura das garras, sem dizer uma única palavra, esperando que ela se levantasse. Chinoko não tinha certeza do que teria feito a seguir. Naquele momento, estava cega de um olho e com o orgulho ainda mais ferido. Se não tivesse visto a cabeça de um dos outros soldados explodindo como um melão podre, talvez pudesse ter tentado outro ataque.

O soldado que parecia mais jovem não estivera prestando muita atenção na cena. Sua luta era mais profunda, do seu ponto de vista: enfrentava a fúria do vento crescente para tentar acender um cigarro velho e úmido que tirara do bolso do casaco. Fazia uma barreira inútil com suas mãos para proteger o fósforo do gelo onipresente, mas a chama não tremulava por mais de um segundo. Estes foram os últimos gestos de sua vida e ainda estava com os dedos em concha em volta do palito apagado enquanto seu corpo decapitado caía. Ninguém vira a maça que o atingira e tampouco a mão que a empunhava, eram rápidos demais para olhos destreinados. Em um instante estava ali, então houve uma nuvem de sangue, massa cefálica e fragmentos de ossos e logo depois não estava mais lá.

Mas o segundo soldado viu o corpo do colega caído no chão, uma mancha rubra que se alastrava no lugar da cabeça. Seus reflexos foram velozes, uma mistura explosiva de treinamento intensivo e instinto de sobrevivência. Ele empunhou a AK-47e girou em torno de si mesmo, focando as espirais de gelo e neve em busca de respostas. Conseguiu enxergar três vultos que se moviam no meio da tormenta e um brilho de aço em sua direção. Pressionou o gatilho e nada aconteceu: um barulho seco de ignição de pólvora e mais nada.

A sua frente ele viu metade do fuzil cortado ao meio como que por uma lâmina muito fina e precisa. E viu a metade do seu braço que estivera segurando o cano da arma. Como seu colega, não teve tempo para sentir dor. Apenas um frio muito intenso preenchendo seu coração e um grito se formando em seu estômago. Viu, em uma fração de segundo, um vulto negro e alto erguer-se no ar com uma espada em punho. Ouviu um uivo macabro que não poderia ter sido produzido pela tempestade enquanto a lâmina descia por sua cabeça, atravessava seu corpo de ponta a ponta e saía por sua virilha. Não compreendeu nada do que havia lhe acontecido e nem foi necessário: as duas metades do seu corpo caíram cada qual para um lado e tudo mais se tornou irrelevante.

O terceiro soldado viu as três formas se aproximarem com cuidado, se afastando dos cadáveres e se aproximando do cenário da luta anterior. Eram homens altos, de complexão robusta e movimentos fluidos, não-humanos. Se moviam como vampiros, mas não da mesma forma que os vampiros que ele conhecia. Ainda menos humanos que o normal para a raça. Vestiam roupas orientais negras, várias camadas de tecido sobrepostas e não portavam armas de fogo, somente armas brancas. O primeiro tinha uma maça, uma grotesca bola de aço com espinhos pontiagudos. O segundo trazia uma espada que não pertencia à tradição oriental: um montante medieval tão ameaçador quanto pesado. Ele segurava a arma somente com a mão esquerda. O terceiro empunhava uma lança decorada com lenços de seda branca. Todas as armas tinham estranhos hieróglifos gravados em sua superfície. Os Assassinos usavam também grandes chapéus de palha que encobriam metade de seus rostos, revelando somente suas bocas de lábios finos e crispados.

Chinoko e o Homem-Urso perceberam ao mesmo tempo o que havia de errado com aqueles vampiros. Sua respiração não produzia o menor efeito na atmosfera, nenhuma sombra da nuvem de vapor que eles mesmos exalavam e que vampiros normais também produziam. Chinoko fora criada em uma vila de camponeses com um rico panteão de deuses e superstições e para ela aquelas aparições tinham um único significado: a Morte tinha enviado seus Assassinos para puni-la por sua afronta, por ter questionado a decisão da vila e fugido com a criança maldita. Ela não tinha outra alternativa a não ser aceitar seu destino com culpa e temor.

Para o soldado russo, a questão era mais prática: matar ou morrer. Com a Kukhri em punho ele avançou em direção ao inimigo mais próximo, o Assassino com a espada.

O vampiro atravessou o soldado como um fantasma, sem se preocupar em levantar a espada ou em se defender. O impulso adquirido desequilibrou o Homem-Urso e por pouco ele não desabou na neve escorregadia. Tombou de joelhos próximo ao vampiro com a lança. O soldado olhou para seu oponente e murmurou uma prece em russo.

A ponta da lança emergiu nas costas do soldado e cresceu como a haste de uma flor escarlate. Ele gritou de dor, um fiapo de voz aguda se espalhando pelo ar em total desespero enquanto seu corpo era erguido do chão pelo cabo da lança. Suas pernas e braços balançavam em espasmos descontrolados. A Kukhri caída no solo refletia agora o pavor de sua face e o sangue que descia como um rio em direção às mãos enluvadas do Assassino.

Chinoko olhava para tudo em estado de semi-choque, sentada na neve, cristais vermelhos se formando em seu rosto. Os Assassinos não demonstravam ter percebido que ela estava ali. Sua mente se recusava a assimilar o que via. Não que não tivesse testemunhado a morte antes, mas aquele fora seu primeiro contato com o horror. Com o indescritível. Décadas mais tarde, Alekssandri lhe explicaria da forma mais didática possível os efeitos da magia, mas isto nunca diminuiria o impacto inicial daquela noite na desolada vastidão siberiana.

Chinoko viu a carne do seu inimigo se transformando em pedra, centímetro por centímetro de músculos mudando para rocha fria e sem vida. Começou pelas pernas que logo pararam de se debater e foi se estendendo, passando pela cintura, pelo buraco onde a lança estava atravessada, petrificando o peito do soldado até atingir a cabeça. Ela viu lágrimas se tornando somente um alto-relevo sobre um rosto esculpido em dor.

O vampiro manteve a estátua que antes fora um licantropo vivo e poderoso no ar por mais alguns instantes. Então, girou-o no ar e desceu violentamente contra o solo, espatifando-o em vários pedaços, libertando a lança de seu cárcere passageiro.

Um dos pedaços caiu próximo a Chinoko e ela percebeu que o encanto durara pouco. O que estava agora espalhado na neve não era mais pedra.

Ainda ignorando a jovem chinesa (ela havia revertido para sua aparência humana sem notar), os três se encaminharam em direção ao pequeno embrulho de roupas que se enrolava em volta do bebê Alekssandri. Não se moviam mais com furtividade animal, mas com a altivez de membros da nobreza ou com a indissolúvel convicção de sua invencibilidade.

"Afastem-se dele, Servos da Morte!", Chinoko gritou. Fez um esforço para se levantar, sem muito sucesso. Mas eles olharam para ela. Todos os três. Seus olhos eram inteiramente negros, sem qualquer traço de branco. Três inescrutáveis abismos ancestrais a fitavam, impossível dizer o que pensavam ou o que sentiam. Ela não conseguiu devolver o olhar, concentrou sua atenção na criança repousando no solo e viu que o pequeno Alekssandri ainda sorria. Se era de absoluta ignorância dos fatos que o cercavam ou devido ao odor pungente de sangue que permeava a tormenta, ela também não saberia dizer. Sem tirar os olhos dele, ela falou novamente: "ele está sob minha proteção...".

Neste momento, um deles falou. Aquele que carregava a espada e estava mais próximo de Alekssandri. Sua pronúncia era perfeita, mesmo no dialeto do Chinês que Chinoko usara.

- Sob a nossa, também.


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