Narrativa ficcional inspirada no universo de RPG Naipes Estranhos para GURPS (em desenvolvimento). Vampiros, Fantasmas e um Assassino Serial em uma história de suspense e magia.
Capítulo
26
No Future ia na frente. Os três entraram por uma porta de serviço
nos fundos da mansão, aproveitando que os garçons não
iam mesmo servir ninguém enquanto os Duelos prosseguissem.
Matriarca seria a parceira do licantropo durante os rituais, mas os
dois nem chegaram a começar. De qualquer forma, eles tinham
que ser rápidos: um confronto astral não tinha hora
para acabar, poderia durar horas ou minutos e havia uma possibilidade
(ainda que remota) que dessem pela falta deles.
No Future sabia ser furtivo, era algo que Swantson tinha que admitir.
O punk se movia pela casa sem fazer quase barulho algum, tomando todo
o cuidado para não esbarrar em ninguém e se esgueirando
antes de cada corredor. Todos os preconceitos dele caíram por
terra: "o filho da puta é bom nisso". Swantson sabia
porque também se considerava um mestre, seguia o licantropo
fazendo ainda menos ruídos. E a Matriarca vinha atrás,
flutuando.
O luxo dentro da casa era ainda maior do que o jardim sugeria, com
tapeçarias de extrema delicadeza dividindo as paredes com quadros
de paisagens celestiais. Havia ainda peças de cerâmica
que por si só já valeriam um bom dinheiro no mercado
negro e incontáveis lustres de cristais iluminando salões
vastos (que poderiam abrigar outra festa sem que ninguém notasse!).
No Future se guiava pelo cheiro de alguma coisa. Ele parava diante
de escadarias e fungava o ar com prazer, balançava a cabeça
de um lado para o outro como que sentindo a brisa e então se
decidia por esse ou aquele caminho. Swantson perdeu a conta de quantas
viradas eles estavam dando ou para que direção a festa
ficava. E até o momento não tinham cruzado com um único
criado ou segurança. Ou o licantropo estava fazendo todos aqueles
desvios para evitar um contato, ou Pharad tinha um controle fraco
de sua própria casa. Swantson acreditava que a resposta era
uma mistura das duas coisas.
Não falavam nada. Matriarca havia explicado que o Muro de Silêncio
era estático, só poderia funcionar enquanto eles estivessem
parados. Mas parecia que não tinha necessidade de novas instruções:
No Future seguia algum roteiro que apenas ele e ela conheciam. Swantson
sentia vontade de empunhar seus revólveres a cada corredor
que viravam, mas se continha. Não tinha esperanças de
que seriam úteis se por acaso esbarrassem em alguém.
Quando ele começou a ter a impressão de que No Future
na verdade estava perdido, percebeu que não estavam mais na
área nobre da casa. Os corredores agora eram mais compridos,
vazios de adorno ou de iluminação visível. Um
brilho feérico vindo de lugar algum acentuava o deserto das
paredes brancas e lisas. Em algum momento haviam cruzado o limite
entre a casa física e a casa mística. Não se
viam portas, tapetes ou qualquer outro diferencial. E ainda assim,
o licantropo não reduziu o seu passo e nem parecia hesitante
mais sobre quais direções tomar. Para Swantson, esquerda
ou direita eram duas opções idênticas. O ar tinha
um leve gosto metálico e havia uma pressão mais forte
no interior de seu ouvido.
- No Future, estamos próximos de uma Zona Morta. Vamos ter
que desviar. - disse a Matriarca em voz baixa, seu eco se espalhando
pelos corredores, mesmo assim.
- O caminho é este. Eu posso sentir o cheiro mais próximo.
- respondeu ele, parando a contragosto e virando-se para encará-la.
- Mas eu não posso ir por ali. Não há Mana. Contorne
a área de alguma forma. Faça o seu melhor.
- E por que eu deveria fazer isto, "senhora"?
A nuca de Swantson se arrepiou diante do tom de hostilidade e seus
dedos procuraram instintivamente o coldre de uma das armas. Um tiro
no crânio poderia derrubar um lobisomem, sendo de prata ou não.
Os olhos de No Future estavam amarelados na semi-escuridão
e um odor de cachorro molhado foi se alastrando perto de Swantson.
Ele nunca vira uma transformação de licantropo, só
ouvira histórias a respeito de pêlos crescendo, caninos
brotando e ossos se esticando, como nos filmes. Não estava
com medo, estava até curioso de como seria. E depois, bala
na cabeça.
- Fantasmas não podem atravessar áreas sem Mana, senhor
No Future. E para o sucesso de nossa empreitada, é indispensável
a minha presença na Sala Proibida.
- Sua empreitada, Matriarca. Não minha, lembre-se disso.
- Ela é a porra de um Fantasma, imbecil. O que você vai
fazer com ela? Latir até ela se encher? - disse Swantson, já
irritado com o rumo daquela discussão.
- Eu tenho meus meios, assassino...
- Não temos tempo para tolices, senhores. No Future, ache outro
caminho. A Treasures & Secrets precisa de cada um de nós
para esta missão. Cada um.
No Future rosnou alguma coisa incompreensível. E tomou outra
direção. Mas agora Swantson estava interessado no que
ele quisera dizer com "eu tenho meus meios...".