Narrativa ficcional inspirada no universo de RPG Naipes Estranhos para GURPS (em desenvolvimento). Vampiros, Fantasmas e um Assassino Serial em uma história de suspense e magia.
Capítulo
24
A grama aos seus pés é verdejante e macia. O céu
azul está límpido de nuvens e uma mesa de pedras foi
colocada sobre o solo. Rodeando há um círculo de carrancas
metálicas de olhar duro. Elas representam o mesmo ser, na mesma
posição e com a face austera.
Nicholas Smith parecia mais jovem sentado ali em frente dele. Mas
Dylan não estava ligando: sabia também que sua manifestação
não correspondia à realidade. Ao lutar nas Esferas Espirituais
ele mantinha a mesma aparência e até as mesmas roupas
do momento em que morrera. Era parte de sua maldição.
Muitas eram as causas das mudanças dos duelistas, a maior parte
motivada por ego ou estrelismo, o controle de sua própria persona
era o único campo garantido para todos. Dylan olhava para Nicholas
e via um jovem recruta de olhar tenso, vestindo uniforme do exército
e com a cruz vermelha costurada na manga da blusa. Nicholas olhava
para Dylan e via um jovem autor teatral cheio de sonhos, vestido como
um fugitivo dos psicodélicos anos 60. Dylan detestava tudo
aquilo, mas nunca conseguira ter o controle que para os outros era
tão fácil. Devia mais essa a Kerevski.
Nenhum dos dois tinha a menor vontade de descartar.
- Estamos na Esfera Terra. As carrancas metálicas representam
Enlil, um Deus Babilônico da Terra. - Nicholas deu a dica, uma
demonstração de cortesia.
- Já havia percebido, mas obrigado assim mesmo.
- Foi treinado para essa Esfera?
- Sim. Fui treinado para todas. Sem querer me gabar.
- Eu, não. Especializei-me em uma apenas: Morte.
- Conheço muito bem Morte. Muito bem.
- E eu conheço muito bem você. - disse Nicholas fitando-o
nos olhos.
- E eu pensei que ninguém se lembrava dos diretores...
- Pharad me contou sua história. Morto pelos Ases Negros em
Londres, um laico aprisionado por meses na Esfera da Morte sem entender
o que aconteceu. Resgatado por um benfeitor hindu, treinado no Carteado.
Interessante que tenha retomado sua vida depois do... incidente.
- O show não pode parar, não é o que dizem? -
Dylan fez um Descarte de Batalha, sem aviso, um Oito de Paus, potencializado
pela influência da Esfera sobre o naipe.
- Você não consegue ocultar o que sente para aqueles
que têm os olhos certos - Nicholas esboçou uma defesa,
sem sucesso, e foi atingido por uma onda de devastação.
Seu corpo astral foi sacudido pela dor, mas seu tom de voz não
se alterou um único momento. Sabia que a dor era ilusória
e passageira no Duelo.
- O que exatamente eu não consigo ocultar?
- Rancor, medo. Diga-me, por que você está aqui hoje?
- Para fazer novas amizades, é claro. Um pouco de vida social
entre meus colegas de Baralho. E você?
- Eu estou duelando contigo. Tentando fazer com que algo aflore. Algo
que você nega.
- Não foi o que eu perguntei, Nick.
Dylan atacou novamente, dessa vez com um Dez de Copas. Usava cartas
altas para minar as resistências do oponente o mais rápido
possível. E era muito bem treinado nas táticas do duelo,
seus ataques descrevendo trajetórias imprevisíveis e
crescendo em poder a cada desvio calculado. Não blefava contra
Nicholas, não porque não soubesse. Sua forma de respeitar
o outro era não blefando: todos os seus movimentos eram reais.
Dolorosamente reais para Nicholas.
- Você é bom. Embora a idéia de gastar todas as
cartas altas logo no início da batalha seja uma das técnicas
mais primitivas que existem.
- É eficaz há séculos. Quando quiser desistir,
fique à vontade.
- Você disse que queria conversar comigo. É exatamente
o que estamos fazendo.
- Não. Não estamos. Você não disse quase
nada até agora. Parece um mau ator representando um mau papel.
- Estou querendo que você mesmo diga, Dylan. Ou sinta.
- O quê?
- Você não superou o que passou. Você acha que
superou. Mas ainda está aí: o pânico e a raiva,
escondidos debaixo de uma capa de cineasta bem-sucedido.
- Eu tenho uma vida melhor do que a que eu tinha antes.
- Sim. Está claro isso. Mas não foi uma escolha sua
abandonar a vida anterior. Foi um choque bastante violento, eu diria.
- Já faz muito tempo...
Dylan usou um Sete de Espadas. Nicholas não tinha como superar
aquele ataque e viu o fluxo de destruição se aproximando.
Dylan gesticulou a seqüência exata necessária para
ativar uma das mais mortais técnicas, chamada de vários
nomes mas comumente conhecida como Espada Espiritual. O nome não
correspondia aos seus efeitos: realizada com perfeição,
a técnica era capaz de dobrar o dano produzido, depois que
o ataque atravessava toda as defesas do oponente. A violência
do golpe emudeceu Nicholas dessa vez. Ele descobria a extensão
do treinamento de seu oponente e já percebia que aquilo que
aprendera com Pharad seria insuficiente. Para sua sorte a Espada Espiritual
só podia ser usada uma única vez por oponente. Mas ainda
assim era um combate de final claro e curto.
- Eu não tenho mais qualquer vínculo com aquele passado,
Nick. Eu sou outra pessoa agora, tenho minha carreira, minha esposa
e meus amigos. Por que eu estaria atado a algo que só me causa
dor e tristeza. A vida é alegria. A vida está no beijo
lançado no ar, está no barulho do filme rodando no projetor,
está em dividir uma pizza com gente boa, nas linhas de um bom
roteiro. O problema de todos vocês é ficar remoendo o
que já foi, fantasmas de si mesmos se assombrando. Diga-me:
por que você parece um recruta tenso? É uma opção
sua ou um trauma de guerra? Lembre-se de que Santos não mentem.
- Ambos.
- Então não me venha com lições de vida.
Escute o meu conselho: viva. Respire, coma, beba, durma, faça
amor, vá ao banheiro. Faça tudo isso que eu não
posso e aproveite a beleza fácil que está ao seu alcance.
- Eu aproveito, amigo. Eu aproveito. Mas e você? Será
que aquilo que você afirma ter basta para você? Será
que no íntimo você não gostaria de ter mais? A
pergunta é: até que ponto você iria para ter aquilo
que lhe foi tirado?
- Certas coisas não voltam mais. Essa foi a primeira coisa
que me ensinaram na Índia.
- E você não odeia que elas não voltem mais? Você
não odeia que tenha que ser difícil estar alegre o tempo
todo? Como você tolera o fato da alegria ser tão difícil
para você? Você não gostaria de abraçar
Jennifer pelo menos uma vez?
- Deixe ela fora disso!
Dylan tinha um Dez de Paus guardado e o usou. Potencializado pela
Esfera de Terra, aquela carta era praticamente um mítico Doze
de Paus. Ele não gastara justo sua carta mais poderosa até
aquele momento, estava reservando. Nicholas testemunhou o turbilhão
se formando a partir das cinzas da carta e se dirigindo para ele em
uma linha quase reta. Sem táticas, sem técnicas, seria
a fúria do poder puro atingindo sua alma desguarnecida. Mas
o Santo também tinha seu truque escondido. O intervalo de tempo
entre a vitória do ataque e a distribuição do
dano podia ser alongado infinitamente para que ambos manipulassem
a lesão. Se antes Dylan havia se valido disso para ativar sua
Espada, agora Nicholas evocava a técnica do Escudo. Ele concentrava
todos os seus pensamentos no simples ato de se proteger, conjurando
assim um Escudo Metafórico ao redor de si mesmo, impenetrável.
O ataque vitorioso de Dylan resvalou para os lados, sem efeito algum.
A defesa era passageira e também só podia ser realizada
uma vez por Duelo.