Narrativa ficcional inspirada no universo de RPG Naipes Estranhos para GURPS (em desenvolvimento). Vampiros, Fantasmas e um Assassino Serial em uma história de suspense e magia.
Capítulo
23
A Esfera não era concreta. Uma abstração em forma
de versos que atravessava seus seres e se fazia onipresente. Seus
sentidos eram ofuscados pela falta de referências: tinham consciência
somente da presença um do outro. E das estrofes, que não
tinham som, cor, cheiro, forma ou gosto. Eram palavras, conceitos,
idéias:
"Surge a aurora e, com ela, brota tua força. Como flor,
abres tuas pétalas ao passar dos momentos. Choras com o orvalho
e sorris com o arco-íris. Ao surgir a tarde, te expandes, gritas
a tua vida. Nos curvamos ante tua passagem, ofuscados, bêbados.
Com o crepúsculo inicias tua corrida ao fenecimento e, quando
a noite finalmente cai, tu implodes e só nos deixas com as
lembranças. Doces lembranças de eterno encanto."
Era como estar dentro de um poema. E o poema era a pista para a identidade
daquela Esfera. Danov via Kira flutuando alguns metros longe dele.
Tinha uma Seqüência boa de oito cartas, apenas duas abaixo
dele. Era bastante poder para quem estava começando, se ela
havia sido bem treinada por Pharad então seria uma adversária
interessante. Não poderia haver mentiras em seu olhar ali e
logo ele descobriria o que viera saber. Já identificara onde
estava: era um dos aspectos da Esfera Beleza, uma das mais restritivas
em termos de combate. Não poderia usar Arcanos Superiores,
nem tampouco cartas de números altos e todo o naipe de Espadas.
Examinou o que tinha: a cruel e agora inútil Dama de Espadas,
um Dez e um Oito que não poderiam ser usados, um Dois de Espadas,
um Valete de Ouros e um Ás de Copas com suas vastas possibilidades
de manipulação mental, ambos inúteis, algumas
cartas menores e um coringa que ele estava guardando para ampliar
seu Relicário. Não era a melhor mão para a Esfera
Beleza, mas contava com a justiça: a Esfera seria igualmente
restritiva para Kira. Ela estava serena, aguardando o primeiro movimento
dele e o analisando. Ele seguiu o protocolo formal que havia aprendido
e a cumprimentou antes da luta.
Danov começou fazendo um Descarte Cego: devolveu à Fonte
um Dois de Espadas que não poderia ser utilizado ali. A carta
dissolveu-se na Esfera, infelizmente carregando um pouco da essência
vital dele no processo. Era a melhor estratégia para aquele
momento, livrar-se das cartas proibidas e tentar a sorte com uma mão
nova. Viu Kira fazendo o mesmo. Era inevitável. As restrições
da Esfera Beleza cancelavam mais da metade da mão da maioria
dos duelistas. Mas ele não esperava o que aconteceu em seguida:
as idéias, a estrutura conceitual que era a base lógica
da Esfera envolveram Kira de uma forma mais homogênea por um
segundo e ele pôde perceber que naquele rápido movimento
ela estava usando o ambiente ao seu favor, formando uma camada de
proteção extra para si. Kira não apenas também
havia identificado a natureza da Esfera como era treinada para se
aproveitar dela. Ia ser uma longa luta.
Danov avaliou o que teria pela frente. A alma de Kira era forte e
rija, quase como a dele. Isto poderia habilitá-la a ser uma
Kravmore, mas não era prova definitiva. E ela era bela. Ainda
mais bela do que a média da Casa, uma beleza lírica
que parecia ter escapado do século passado. Era fria, porém
repleta de promessas. Evidentemente as vibrações da
Esfera estavam prejudicando a objetividade de seu julgamento. Esperava
que ela não fosse treinada nas artes da Sedução
Anímica, ou o ambiente o tornaria presa fácil. Mas achava
pouco provável que tivesse essa chance. Talvez os detalhes
daquele Duelo estivessem sendo cuidadosamente articulados por Pharad.
As Esferas eram aleatórias, mas havia constantes rumores que
os Mestres Carteadores eram capazes de influir na escolha.
Ele decidiu usar um Quatro de Copas para começar a batalha
propriamente dita com um grande ataque. A Esfera Beleza potencializava
o poder do Naipe de Copas, seria um Descarte de Batalha difícil
de resistir. Se ela não tivesse usado também um. Com
cinqüenta e duas cartas comuns no Baralho, ela tinha justamente
outro Quatro de Copas para usar. As manobras de ajuste de poder se
iniciaram sem aviso, enquanto os fluxos de destruição
emanavam das cartas evaporadas, tentando atingir seus oponentes. Danov
era mestre nas artes da Tática e do Blefe, fingir que estava
onde não estava, fingir que seu poder era maior do que aparentava
e desestabilizar a concentração do poder adversário,
simular uma fuga e desorientar o ataque e outros truques que precisavam
ser executados com a velocidade do pensamento. Como ele temia, Kira
tentou seduzi-lo. Era uma arte que só poderia ser executada
entre membros do sexo oposto, mas que cobrava um alto preço
de suas vítimas. Um olhar fora de hora, um movimento de corpo,
um jogo de luzes e sons e o estrago estava feito: o Carteador afetado
perdia o domínio de seu fluxo e era atingido pelo ataque oponente.
Kira tinha a vantagem da Esfera Beleza ao seu lado, que tornava a
Sedução quase irresistível. Danov perdeu um instante
vital, mas suas próprias manobras o salvaram. Kira foi atingida
pelo ataque dele, enquanto o dela se desvanecia como fumaça.
Foi um dano pequeno. O corpo espiritual dela sofreu uma leve distorcida
e se estabilizou novamente. O Duelo havia apenas começado.
Danov fez o Descarte Cego de um Valete de Ouros. Precisava esvaziar
a mão antes de pegar um baralho novo. Kira fez o mesmo. Mais
uma vez ela usou seu conhecimento da Esfera para obter vantagem. Uma
espiral de sensações a envolveu, restaurando parte da
vitalidade que ela havia perdido no golpe anterior. O olhar dela era
gélido e nenhum dos dois falava. Descobrir algo sobre ela seria
complicado.
Novo ataque. Danov saca sua última carta de Copas, um Dois
e Kira usa um Quatro de Ouros. Nesse momento, ele comete um erro crítico
ao olhar nos olhos dela tentando desvendar seus mistérios.
Encontra somente uma ilha de prazeres profundos onde se perde pelo
tempo necessário para que o fluxo de dano o atinja. O golpe
é potente e é um aviso para que ele não a subestime.
Não houve tempo para táticas ou blefes de sua parte
e ele decidiu ficar mais alerta. Haveria espaço para revelações
se e quando ele abrisse vantagem.
Ele livrou-se de um Dez de Ouros. E atacou com um Dois de Paus, sua
última carta válida. Ela defendeu com um Quatro de Ouros.
Apesar de estar mais atento agora ele não conseguiu escapar
dos poderes sedutores da vampira e perdeu o controle de seu ataque.
Sentiu novamente a potência do dano dela. Estava enfrentando
alguém treinado para seduzir na única Esfera que ampliava
os efeitos da Sedução. Pouco importavam as suspeitas
de ela ser sua irmã. Não se relacionavam com sexo ou
erotismo as sutilezas utilizadas por aquela técnica que ele
não quisera aprender, mas em elementos de desejo espiritual,
magnetismo primal entre corpos não-físicos. Era possível
que inimigos de longa data fossem afetados pela Sedução.
O que Kira fazia era impor sua presença sobre a dele, acentuar
sua vontade sobre a dele, garantir sua existência sobre a dele,
fazer com que suas vítimas parem de pensar em si e pensem nela,
enquanto seu nada doce ataque esmaga-lhes a alma. Uma arte de pouca
honra, na opinião de Danov.
Danov descarta uma Dama de Espadas com raiva. Em outro plano astral
aquela carta seria decisiva, ampliando o dano que ele fizesse contra
Kira. Mas em Beleza, era proibida. Ele percebe que dessa vez Kira
não faz nenhum Descarte Cego, o que é um mau sinal.
Isso só pode significar que as cartas que ela tem em mãos
agora são boas para ela. Danov não pode dizer o mesmo
das suas. Kira invoca mais uma vez os fluxos semânticos da Esfera
e renova suas energias. Danov percebe que agora ela retornou aos mesmos
níveis de vitalidade de quando o combate começou, enquanto
ele está ferido.
Danov usa um Oito de Copas para atacar, mesmo sendo uma carta inválida.
O poder da carta é reduzido a zero, mas é tudo que ele
tem agora. Ela usa um Três de Paus e o seduz novamente. O impacto
é forte, ele sente sua vitalidade entrando no campo negativo
onde um homem comum já estaria próximo da morte.
Ele faz o pior Descarte Cego do combate, se livra de um Coringa. Se
tivesse dois Coringas poderia tê-los trocado por uma daquelas
míticas cartas Relíquias que se escondem no interior da Fonte.
Estava guardando aquele Coringa para outro dia, outra luta. Agora
era tarde. Viu Kira invocando uma carta diretamente da Esfera. Ela
era treinada no Conhecimento da Esfera Beleza, muito bem treinada
; estava lutando em casa.
Danov ataca com um Ás de Copas, proibida com poder reduzido
para zero, mas é sua última carta. E Kira reage com
uma carta válida, um Dois de Ouros. Danov dribla momentaneamente
a onda de destruição, mesmo com Kira seduzindo-o e o
desestabilizando. Parece que os dois ataques vão se anular,
mas a balança pende para ela que usou uma carta válida
e Danov é atingido mais uma vez.
Kira descarta dessa vez e fica com a mão vazia, como ele. É
chegada a hora de renovar a mão. O processo consome fadiga
dos dois, como se estivessem empurrando uma carga pesada ladeira acima.
Estafante ou não, eles precisam fazer isto para continuar.
Danov recebe dez cartas novas e dá uma olhada no que o destino
lhe presenteou.