Narrativa ficcional inspirada no universo de RPG Naipes Estranhos para GURPS (em desenvolvimento). Vampiros, Fantasmas e um Assassino Serial em uma história de suspense e magia.
Capítulo
21
Um relógio onipresente marcou a última das doze badaladas
da meia-noite e Pharad iniciou o discurso secular no exato segundo
que o eco desapareceu. Todos pararam para escutar. Era para isto que
foram convidados, afinal.
"Saudações Paus
Saudações Espadas
Saudações Copas
Saudações Ouros.
Está aqui reunida a nata da Sociedade do Carteado para uma
vez mais testemunhar a admissão de novos jogadores. Reunidos
para acolher novas almas, para orientar seus corações
e proteger o seu corpo. Pelas glórias da Fonte, peço
a todos que saúdem Kira, Ferric e Nicholas Smith. Irmãos
de poder, hoje e sempre!!!"
Aplausos entusiásticos antecederam a subida ao palco de cada
um deles.
Ferric foi um dos mais aplaudidos e o primeiro a entrar. Era também,
como era de se prever, o mais elegante de todos: vestindo as cores
e as jóias que ostentavam sua posição na hierarquia
que ocupava entre os elfos. Filho de um Duque da Faeria, exilado por
causa da guerra, sua família era uma das mais ricas de um povo
que já nascia abençoado por títulos e nobreza.
Dizia-se que seus irmãos conseguiram duplicar a fortuna investindo
em diamantes na África. Ferric era o único de sua geração
a receber o Baralho, seu treinamento por Pharad indicava o status
que os seus usufruíam dentro do Concílio dos Cinco.
A partir daquela noite, porém, seu destino era incerto. Uma
parte de seus parentes achava que ele deveria articular a paz, fazendo
alianças políticas na Inglaterra, ajudando o movimento
de intelectuais que desejava um fim pacífico para o conflito.
A outra parte da família achava indispensável um general
Carteador liderando as forças do Quarto Regimento Dourado contra
as legiões "bárbaras" nas sangrentas batalhas
que aconteciam. Ele preferia o caminho da paz, era um elfo de boa
índole, mas sua opinião não teria o menor valor
quando seu futuro fosse decidido.
Nicholas Smith subiu depois e não recebeu tantos aplausos quanto
Ferric. Não por tanto tempo, pelo menos. Ele não tinha
um coro de bajuladores a sua disposição, mas também
dava pouca importância a esses detalhes. Estar ali era o bastante.
Dedicara sua vida a servir o próximo, fosse no front ou em
tempos de paz e recebera duas graças: os dons de Santo na adolescência
e, cinco anos atrás, o Baralho. Ser treinado pelo melhor do
mundo era um elogio e uma honra a qual não estava acostumado.
Chorou como uma criança e abraçou Pharad no palco. Tinha
uma poesia no bolso, escrita com dedos trêmulos minutos antes
e iria lê-la em breve, após os Duelos Iniciáticos.
Kira entrou em seguida e teve a mesma recepção de Nicholas,
exceto talvez pelos assobios entusiásticos de um Fiodor Rasputin
perceptivelmente bêbado e apoiado no ombro de um garçom.
Ela era jovem e não sorria. Vestida de negro da cabeça
aos pés e usando uma jaqueta de couro, parecia estar pronta
para ir a um clube noturno do que para uma festa de aristocratas.
Usava batom negro e maquiagem pesada. Não sorria. Nem um pouco.
Conforme Pharad dissera, ela era alta e musculosa. Não o bastante
para deixar de ser feminina ou para que se tivesse certeza de sua
natureza Kravmore, mas o bastante para se diferenciar das outras vampiras
macérrimas e frágeis que estavam por ali. Fez uma mesura
para a platéia e se colocou ao lado dos outros.
Um silêncio ritualístico se espalhou pelos jardins. Havia
chegada a hora dos Duelos, o momento em que os Carteadores usariam
seus poderes para travar estranhas batalhas em Esferas Astrais e se
submeter ao risco da Aniquilação. Não deveria
haver motivos para apreensão: eram todos conhecidos membros
da Sociedade, convidados de Pharad e adeptos de um certo requinte,
então tudo não passaria de um jogo sem conseqüências,
um Duelo propriamente dito. Mas a sombra da Morte e, principalmente
da Aniquilação, se interpunha a todo instante. Poucos
eram aqueles que já não haviam testemunhado (ou mesmo
provocado) o fim de outros Carteadores. E esta era uma imagem difícil
de se apagar da memória. Seriam anunciados os pares dos Iniciados
e os demais escolheriam entre si.
Kira duelaria com Danov. Ele olhou para ela enquanto se aproximava
do palco onde a mesa e as cadeiras já haviam sido colocadas.
Não havia qualquer emoção perceptível
naqueles olhos escuros ressaltados pelo rímel negro. Ele pouco
se importava com a luta que se aproximava, seria para ele uma trivialidade
perto da revolução que já começava a se
formar dentro de si. A semelhança de Kira com as vampiras Kravmore
que ele conhecia era sutil, mas estava lá. Seu coração
acelerou e sua boca ficou seca. Não conseguiu achar nada para
dizer a ela e apenas se sentou em seu lugar.
Ferric, para espanto de todos, escolheu Lady Flower. A pequena feiticeira
não demonstrou surpresa. Ficou claro para os presentes que
havia ramificações políticas obscuras por trás
da escolha, mas ninguém imaginava quais. Ninrod a conduziu
até o palco e se posicionou atrás dela, a espingarda
guardada em um coldre nas costas por sobre o terno. Ninrod não
podia duelar: qualquer confronto astral com ele terminaria em morte,
sendo otimista. O cavalheirismo do Duelo lhe era vetado. Por isso
ele apenas ficaria ali, cuidando do corpo de sua senhora pelo tempo
que fosse necessário, enquanto as almas de Ferric e Lady Flower
ascenderiam para uma das Dez Esferas Espirituais conhecidas onde a
verdadeira luta seria travada.
Dylan Carmichael já sabia que Nicholas seria seu adversário.
Para os demais convidados não havia importância: ambos
eram personagens avessos às intrigas diplomáticas e
aos tablóides de circulação restrita daquela
Sociedade. Mas Dylan tinha outras preocupações no momento,
como tentar descobrir quem seria o oponente do Ás de Paus.
Era certo que não seria o Serial Killer. Os Executores também
não podiam participar de Duelos rituais como aquele: eles só
jogavam para matar, era de conhecimento de todos. Quem seria o adversário
do licantropo? Quem teria a chance única de roubar-lhe a vida
ou enviá-lo para uma viagem sem retorno pelo portal da Aniquilação?
Era apenas uma questão de escolhas reveladas... Sua mente se
agitava e mal escutou quando Jennifer lhe desejou boa sorte.
Pharad escolheu um dos Gerentes Anões e um Senhor Feudal Elfo,
duelaria com dois simultaneamente. Uma saída de prestígio,
com certeza. E uma demonstração de poder.