Narrativa ficcional inspirada no universo de RPG Naipes Estranhos para GURPS (em desenvolvimento). Vampiros, Fantasmas e um Assassino Serial em uma história de suspense e magia.
- Destruir o incorpóreo não seria problema
algum. Não sou eu o retrato da fúria
e da caos? Temido no Abismo, respeitado na Terra,
odiado entre os imundos e...
- Cale-se, Balgoth. O único consolo de minha
maldição é não poder escutar
sua fanfarronice dia e noite. Não consegue
falar como um ser humano?
- Estou acima da humanidade, minha visão penetra
onde os homens não podem enxergar, minha força
se estende além dos limites do...
- Não tem jeito. É inútil. Vir
aqui foi um erro.
- A senhora jamais erra. Ninrod é testemunha.
E pobre daquele que desafiar o testemunho de Ninrod,
seu castigo será duro e implacável como
o raio que desce...
As circunstâncias de sua aliança nunca
foram esclarecidas. Ninrod já era aliado dela
antes mesmo da maldição que a aprisionara
naquele corpo. Supunha-se que tenham sido amantes.
As más-línguas diziam que ainda eram.
Passeando pelo jardim um ao lado do outro poderiam
passar por pai e filha em um parque. Exceto pela espingarda
que ele trazia ainda junto ao corpo.
Ninrod caminhava ligeiramente adiantado. Fez um gesto
para que ela parasse e apontou para frente, uma clareira
no meio do jardim. Moveu os lábios, formando
uma frase silenciosa: "é um fantasma".
Ela se aproximou com cautela. Não gostava de
espreitar os outros, mas também não
gostava de fantasmas. Havia um casal na clareira:
um homem alto de capote escuro e uma velha fantasma
de roupas medievais. Reconheceu a Matriarca, uma amiga
de Pharad, mas não sabia quem podia ser o homem.
Decidiu não atrapalhar e seguir por outro caminho.
Estava esbarrando em fantasmas demais no mesmo lugar.
Mas Ninrod a deteve novamente. Gesticulando ele a
fez compreender que não escutava nada. Os dois
estavam afastados da festa, conversando, e Ninrod,
escondido a apenas cinco metros deles nada escutava.
Era suspeito. Lady Flower chegou mais perto, cuidando
para ser tão sorrateira quanto seu protetor.
Chegou perto o suficiente para ler os lábios
deles.
- Não sou um ladrão.
- Eu sei que não, senhor Swantson.
- Então, acho que você e sua firma contrataram
o homem errado.
- Já contratamos um ladrão. E o senhor
é o homem certo para a função
que irá cumprir.
- Eu vou matar alguém.
- Não. Não terá que matar ninguém.
Para ser franca, será melhor para nossa operação
que o senhor não mate ninguém em absoluto.
- E quem seria o terceiro sócio?
- Não pertence ao seu círculo de relações.
E temo que esteja atrasado.
- Não importa. Quero saber o nome e o que faz.
- Seu nome não importa nesse ramo de negócios.
Digamos que ele prefira ser chamado de No Future.
- No Future? Que merda de nome é esse? Isso
é uma frase, não um nome.
- É como ele prefere. É uma frase de
uma música punk.
- Não escuto esse tipo de coisa.
- Nem eu tampouco. Contudo, No Future será
nosso terceiro associado.
- Espero que não seja outro fantasma.
- Posso lhe assegurar que não.
Matriarca iria segurar a identidade de No Future enquanto
fosse possível. Não que fizesse alguma
diferença para Lady Flower. Se eles estavam
falando do mesmo No Future de quem ela ouvira falar,
então a confusão era mais pesada do
que pensava.
- Não vai me dizer o que ele é, certo?
- O senhor será notificado quando for apropriado.
- E o que vamos roubar? Pharad parece ser bastante
rico. Mas também acho que dinheiro e bens materiais
não tenham qualquer significado para sua empresa.
- Treasures & Secrets não está interessada
em coisas mundanas.
- Continue falando...
- Estamos aqui atrás de um artefato místico.
Um dentre vários coletados ao longo dos séculos
e estocados nessa mansão. Um artefato de extrema
importância para os negócios da empresa.
- Como sabe que ele está aqui?
- Eu o vi, senhor Swantson. Tenho livre acesso às
dependências de Sutterville Dream enquanto convidada
de Pharad. Sei que o artefato existe e está
aqui por que eu o vi.
- Por que não o rouba você mesma?
- A segurança é mais forte do que aparenta.
A própria localização do artefato
se altera a cada dia. A casa muda quando o dia amanhece,
corredores trocam de posição, aposentos
viajam. O quarto que contém o artefato não
está mais no mesmo lugar de antes.
- Eu quero dizer, por que você não o
roubou no instante em que o viu?
- Pharad estava comigo.
- Você freqüenta a casa dele, passeia por
aí, ganha a confiança dele o suficiente
para poder convidar quem você quiser para a
festa e então o rouba. Não vou mencionar
a chantagem na sua ficha corrida, mas acho que você
não vale nada.
- Pharad não perceberá a ausência
do objeto. Como eu disse, senhor Swantson, trata-se
de um... entre vários.
- E como vai localizá-lo agora?
- Para isso No Future foi convocado.
- Chantageado, você quer dizer. Como eu.
- Não. No Future tem um preço diferente.
Ele está atrás de outro objeto. Para
si.
- Já são dois artefatos roubados agora.
Onde eu entro? E o que acontecerá se formos
descobertos?
- Teu papel será pequeno, mas decisivo. Saberá
quando for adequado. E não te preocupes sobre
sigilo. Não há chances de sermos surpreendidos.
A Treasures & Secrets pensou em todos os detalhes
da operação. Nesse instante mesmo estamos
envolvidos em algo chamado de Muro de Silêncio.
O senhor não tem conhecimentos mágicos,
mas posso garantir que o Muro impede que qualquer
um possa nos escutar enquanto conversamos.
- Mas, se formos pegos?
- Reze para teu Deus, senhor Swantson. Reze para Anúbis.
Não precisava escutar mais. Na verdade, nem
queria. Lady Flower puxou Ninrod pela manga e se afastou,
já imaginando o que poderia fazer com aquela
informação e evitando o olhar curioso
do demônio.