Naipe Estranhos - Uma Narrativa de RPG O Que é Naipes Estranhos?

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Capítulo 16
- Está tudo bem, minha senhora? - Ninrod insistiu.

- Sim, está.

- Destruir o incorpóreo não seria problema algum. Não sou eu o retrato da fúria e da caos? Temido no Abismo, respeitado na Terra, odiado entre os imundos e...

- Cale-se, Balgoth. O único consolo de minha maldição é não poder escutar sua fanfarronice dia e noite. Não consegue falar como um ser humano?

- Estou acima da humanidade, minha visão penetra onde os homens não podem enxergar, minha força se estende além dos limites do...

- Não tem jeito. É inútil. Vir aqui foi um erro.

- A senhora jamais erra. Ninrod é testemunha. E pobre daquele que desafiar o testemunho de Ninrod, seu castigo será duro e implacável como o raio que desce...

- Apenas... fique... calado. Caminhe comigo, Ninrod. Preciso relaxar.

As circunstâncias de sua aliança nunca foram esclarecidas. Ninrod já era aliado dela antes mesmo da maldição que a aprisionara naquele corpo. Supunha-se que tenham sido amantes. As más-línguas diziam que ainda eram. Passeando pelo jardim um ao lado do outro poderiam passar por pai e filha em um parque. Exceto pela espingarda que ele trazia ainda junto ao corpo.

Ninrod caminhava ligeiramente adiantado. Fez um gesto para que ela parasse e apontou para frente, uma clareira no meio do jardim. Moveu os lábios, formando uma frase silenciosa: "é um fantasma". Ela se aproximou com cautela. Não gostava de espreitar os outros, mas também não gostava de fantasmas. Havia um casal na clareira: um homem alto de capote escuro e uma velha fantasma de roupas medievais. Reconheceu a Matriarca, uma amiga de Pharad, mas não sabia quem podia ser o homem. Decidiu não atrapalhar e seguir por outro caminho. Estava esbarrando em fantasmas demais no mesmo lugar. Mas Ninrod a deteve novamente. Gesticulando ele a fez compreender que não escutava nada. Os dois estavam afastados da festa, conversando, e Ninrod, escondido a apenas cinco metros deles nada escutava. Era suspeito. Lady Flower chegou mais perto, cuidando para ser tão sorrateira quanto seu protetor. Chegou perto o suficiente para ler os lábios deles.

- Não sou um ladrão.

- Eu sei que não, senhor Swantson.

- Então, acho que você e sua firma contrataram o homem errado.

- Já contratamos um ladrão. E o senhor é o homem certo para a função que irá cumprir.

- Eu vou matar alguém.

- Não. Não terá que matar ninguém. Para ser franca, será melhor para nossa operação que o senhor não mate ninguém em absoluto.

- E quem seria o terceiro sócio?

- Não pertence ao seu círculo de relações. E temo que esteja atrasado.

- Não importa. Quero saber o nome e o que faz.

- Seu nome não importa nesse ramo de negócios. Digamos que ele prefira ser chamado de No Future.

- No Future? Que merda de nome é esse? Isso é uma frase, não um nome.

- É como ele prefere. É uma frase de uma música punk.

- Não escuto esse tipo de coisa.

- Nem eu tampouco. Contudo, No Future será nosso terceiro associado.

- Espero que não seja outro fantasma.

- Posso lhe assegurar que não.

Matriarca iria segurar a identidade de No Future enquanto fosse possível. Não que fizesse alguma diferença para Lady Flower. Se eles estavam falando do mesmo No Future de quem ela ouvira falar, então a confusão era mais pesada do que pensava.

- Não vai me dizer o que ele é, certo?

- O senhor será notificado quando for apropriado.

- E o que vamos roubar? Pharad parece ser bastante rico. Mas também acho que dinheiro e bens materiais não tenham qualquer significado para sua empresa.

- Treasures & Secrets não está interessada em coisas mundanas.

- Continue falando...

- Estamos aqui atrás de um artefato místico. Um dentre vários coletados ao longo dos séculos e estocados nessa mansão. Um artefato de extrema importância para os negócios da empresa.

- Como sabe que ele está aqui?

- Eu o vi, senhor Swantson. Tenho livre acesso às dependências de Sutterville Dream enquanto convidada de Pharad. Sei que o artefato existe e está aqui por que eu o vi.

- Por que não o rouba você mesma?

- A segurança é mais forte do que aparenta. A própria localização do artefato se altera a cada dia. A casa muda quando o dia amanhece, corredores trocam de posição, aposentos viajam. O quarto que contém o artefato não está mais no mesmo lugar de antes.

- Eu quero dizer, por que você não o roubou no instante em que o viu?

- Pharad estava comigo.

- Você freqüenta a casa dele, passeia por aí, ganha a confiança dele o suficiente para poder convidar quem você quiser para a festa e então o rouba. Não vou mencionar a chantagem na sua ficha corrida, mas acho que você não vale nada.

- Pharad não perceberá a ausência do objeto. Como eu disse, senhor Swantson, trata-se de um... entre vários.

- E como vai localizá-lo agora?

- Para isso No Future foi convocado.

- Chantageado, você quer dizer. Como eu.

- Não. No Future tem um preço diferente. Ele está atrás de outro objeto. Para si.

- Já são dois artefatos roubados agora. Onde eu entro? E o que acontecerá se formos descobertos?

- Teu papel será pequeno, mas decisivo. Saberá quando for adequado. E não te preocupes sobre sigilo. Não há chances de sermos surpreendidos. A Treasures & Secrets pensou em todos os detalhes da operação. Nesse instante mesmo estamos envolvidos em algo chamado de Muro de Silêncio. O senhor não tem conhecimentos mágicos, mas posso garantir que o Muro impede que qualquer um possa nos escutar enquanto conversamos.

- Mas, se formos pegos?

- Reze para teu Deus, senhor Swantson. Reze para Anúbis.

Não precisava escutar mais. Na verdade, nem queria. Lady Flower puxou Ninrod pela manga e se afastou, já imaginando o que poderia fazer com aquela informação e evitando o olhar curioso do demônio.

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