Narrativa ficcional inspirada no universo de RPG Naipes Estranhos para GURPS (em desenvolvimento). Vampiros, Fantasmas e um Assassino Serial em uma história de suspense e magia.
Capítulo
15
Dylan correu atrás tarde demais. De alguma
forma, Deborah desaparecera entre as árvores
ou entrara para debaixo da terra ou qualquer coisa
assim. Fugir era muito fácil para um fantasma
e ele sabia disso. Olhou ao redor e viu-se sozinho.
Longe de Jennifer, mesmo que por alguns minutos, podia
sentir com mais intensidade o quanto de sua vida pós-morte
era preenchida por sua esposa e quão sombrio
ele poderia ter se tornado a partir da maldição.
Uma aparição que diz frases retumbantes
e então desaparece, como nos filmes baratos
que ele mesmo fez em início de carreira. O
mais certo é que estivesse assombrando aquele
beco sem graça até hoje, importunando
os bêbados e botando os guardas para correr,
se tornando um tipo de lenda: "a assombração
da viela". Pelo menos até que os urbanistas
demolissem tudo e o transformassem no "fantasma
da nova estação de metrô".
Londres era cheia destes pequenos mitos patéticos.
"Mas não estou muito longe disso",
ele pensou. "E talvez tivesse mais paz se simplesmente
continuasse atado àquele pedaço de rua".
Afastou a amargura da cabeça com a tranqüilidade
de quem já passara por estes momentos várias
e várias vezes e se encaminhou de volta para
a festa. Não tinha a menor vontade de entregar
recados melancólicos de fantasmas depressivos
para assassinos em série. Tinha uma festa para
curtir, uma esposa para quem voltar e muito tempo
pela frente.
Quase esbarrou em Lady Flower. Um inconveniente (ou
não) de sua condição era não
ser notado com muita freqüência. Atravessou
uma árvore e lá estava ela: a pequena
gesticulou brandamente e uma carta brilhante surgiu
entre seus dedos. Um Quatro de Paus. Outro gesto seu
e a carta se esvaneceu, como névoa incandescente.
Ela murmurou algumas palavras e Dylan pôde ver
uma onda de luminescência pálida se estender
de sua mão direita, banhando um arbusto ressecado
no meio do jardim. Diante de seus olhos ele viu o
arbusto ganhar viço, novas folhas brotarem
em velocidade impossível e os galhos se firmaram.
O brilho cessou, mas seu efeito era permanente: o
arbusto estava verdejante mais uma vez.
Ele pigarreou para que ela percebesse que ele estava
ali, mas não provocou nenhuma reação.
Ela apenas olhava para o que tinha feito, com sutil
satisfação surgindo em seus lábios.
Dylan se aproximou até que ela o visse. E o
resultado não foi o que esperava: ela gritou
algo que ele não entendeu e uma igual combinação
de ódio e medo atravessou seu olhar. Mais do
que isso, ela manifestou um Dez de Espadas e conjurou
um relâmpago entre seus dedos simultaneamente.
A eletricidade se acumulou em sua palma, preenchendo
seus dedos diminutos com faíscas azuladas e
o ar com o odor característico de ozônio.
Ela segurou o raio, mas não o disparou. Ainda.
Dylan manteve a calma. Ao que tudo indicava, a pequenina
não deveria ser subestimada. Um relâmpago
místico era o tipo de coisa que machucava fantasmas.
Não tanto quanto seria se aquela eletricidade
acumulada atingisse um ser vivo, mais ainda assim
seria uma pancada violenta. Na verdade, seus mestres
haviam lhe contado, não era nem a eletricidade
que contava. Era a Magia posta no projétil
para que ele existisse que poderia machucá-lo.
E se ela tinha usado todo o poder daquele Dez, ele
estava bem encrencado. Decidiu usar sua melhor arma:
um bom papo californiano.
- Mamãe não disse para não brincar
com tomadas?
- Afaste-se, fantasma! Dê meia volta e retorne
pelo mesmo caminho que veio. Eu te esconjuro, maldito.
- Não sei se te contaram, mas há uma
diferença básica entre Demônios
e Fantasmas. Demônios vem do Abismo. E Fantasmas,
não. Eu não posso ser esconjurado. Exceto
por Santos, é claro. Você é Santa?
- Basta de zombarias, ser profano. Afaste-se! Estou
avisando!
O relâmpago irritava-se junto com ela. Ela gritava
e os raios gritavam junto. O papo californiano não
estava funcionando. Talvez bajulação?
- Eu vi o que você fez com o arbusto. Bastante
legal. Conheci gente que também curava plantas,
na Índia. - tentava ser casual. E tentava não
olhar para as faíscas que podiam fritá-lo.
- Não tente ser meu amigo, fantasma. Eu não
tenho mais amigos.
- Posso te dar uns telefones, se você quiser.
Gente bacana, aberta.
- Caia fora!
"Sem sarcasmo, Dylan, só desta vez...",
ele pensava. Mais bajulação.
- Adorei seu vestido. Combina com a raiva nos seus
olhos. Dylan Carmichael, ao seu dispor.
- Vá para o Abismo...
Ela agora apontava o inquieto relâmpago direto
para seu peito e ficava cada vez mais nervosa. A situação
estava fugindo de seu controle, se é que estivera
em algum momento. Ela era imune ao charme de sua voz,
que sempre conseguia convencer os produtores a liberar
mais dinheiro para os filmes. Ela estava lendo seus
lábios. Era surda. O ódio nos olhos
dela cedera lugar ao desespero. Havia algo nele que
a incomodava e ele não entendia o que era.
Dylan não desistiu: era jogar conversa fora
ou levar alguns milhares de volts de energia mística
à queima-roupa. Não era mais a sua idéia
de evento social.
- Acho que já sei por que você não
tem amigos. Mas adivinhe só: estou disposto
a investir na relação, se você
quiser. Nos conhecer melhor, de repente. Qual é
o seu filme favorito?
Desta vez ela não teve muitas alternativas
a não ser deixar escapar um sorriso. Já
era um começo, ainda que houvesse muito mais
de histeria do que hilaridade naqueles lábios
crispados. Porém, a mão relaxou e as
faíscas diminuíram de intensidade.
- Você é louco, fantasma. Saia e me deixe
em paz, por favor.
- Isto é um "sim, podemos ser amigos"
ou é um "não, nem brincando"?
- Algum problema, senhorita Morrison? - uma terceira
voz surgiu atrás de Dylan -Ninrod chegou.
"O Demônio guarda-costas", pensou
Dylan, enquanto se virava e dava de cara com o cano
de uma espingarda calibre 12. Ninrod abaixou a arma
com uma mão. E com a outra conjurou uma bola
de fogo, uma esfera rubra e mortífera que ficou
equilibrada na ponta de seu indicador.
- Eu sou Ninrod, caçador de homens e espíritos,
a Lâmina da Vingança, a Ira Implacável
do Inferno. Sou a maldição daqueles
que corrompem e a benção dos inocentes,
onde eu estou o vento esfria e a terra geme ante minha
presença. Nada escapa de meus olhos vigilantes.
Sou o Paladino...
- Está bem, Ninrod. Ele já entendeu.
- ela falou.
- O fantasma a machucou, minha senhora? Saiba que,
se algum malefício este verme causou à
sua pessoa, minha vingança será avassaladora
e impiedosa como as trevas que habitam meu coração
frio. O suplício do maldito será lendário!
Em outro momento, Dylan acharia a cena cômica.
Ninrod tinha uma voz empostada, uma falsa imitação
de barítono, uma tentativa frustrada de soar
como um super-herói cafona em alguma produção
barata. Ele não convencia. Entretanto, Dylan
estava entre ser frito por um relâmpago ou queimado
pela esfera flamejante da criatura. Ou ambos. Precisava
encontrar uma forma de sair dali. De preferência,
com classe.
- Relaxa, parceiro. Sua amiga e eu estávamos
apenas conversando, tentando estabelecer uma amizade.
Guarde sua "vingança avassaladora"
para quem merece.
- Não zombe de minha paciência, fantasma.
Eu sou Ninrod, o fogo purificador enviado ao mundo
para pregar um novo tipo de justiça...
- Eu sou Dylan Carmichael, diretor de cinema, marido,
eleitor do Partido Democrata e arrisco um karaokê
de vez em quando.
- Eu devoro almas no café da manhã.
- E não prejudica a dieta?
Precisava segurar o sarcasmo. Urgentemente. Por um
segundo pareceu que o disfarce humano de Ninrod iria
cair: algo se contorceu por debaixo de seu rosto e
ele pôde ouvir alguns ossos se rearranjando
nas costas.
- Basta, Ninrod. Sua senhora passa bem. - ela falou.
O relâmpago fora descarregado para o solo, sem
provocar estragos. - Deixe-o ir.
- Se esta é sua vontade... - Ninrod se afastou,
apontando a bola de fogo para o chão, mas sem
tirar os olhos de Dylan.
Dylan virou-se para ela, intrigado.
- Se houver algo que eu possa fazer para melhorar
este mal-entendido, senhorita...
- Não há nada. Nem foi um mal-entendido.
Deixemos as coisas como estão, fantasma. Parta
e não olhe para trás.
- O prazer foi meu, senhorita Morrison.
Dylan retornou para a festa e para o mundo normal
de bruxos e monstros da escuridão. Duvidava
que "Morrison" fosse o nome verdadeiro de
Lady Flower, mas pelo menos parecia mais íntimo.
E ainda não acreditava como uma mulher tão
cuidadosa com um arbusto podia ser tão agressiva
com outras pessoas. Definitivamente, aquela festa
estava chata, chata.