Narrativa ficcional inspirada no universo de RPG Naipes Estranhos para GURPS (em desenvolvimento). Vampiros, Fantasmas e um Assassino Serial em uma história de suspense e magia.
-Um Demônio. A putinha realmente tem muita coragem em trazer
o namorado para cá.
O vampiro próximo a Danov tinha um indisfarçável
hálito de álcool e insistira em puxar assunto com ele,
mantendo uma proximidade que era, no mínimo, desagradável.
Seus cabelos ruivos mal penteados estavam esmaecidos e seus olhos
eram cinzentos. A roupa não assentava bem em seu corpo, larga
nos lugares errados e apertada onde não deveria ser. Tinha
uma gravata cor de rosa. O sotaque era russo. Um Rasputin longe de
casa, era o mais provável. Havia algo nele que o perturbava,
uma antipatia instantânea.
-Como se não bastassem os malditos licantropos largando parasitas
por todos os lados. Agora temos Demônios circulando por aí.
- Quem é ele? - perguntou Danov, com impaciência.
- Ninrod. Parece que ela o libertou de uma furada, agora ele a segue
que nem um cachorrinho para cima e para baixo. "Oh, mamãe,
ele me seguiu desde o Inferno. Posso ficar com ele?" - sua imitação
de voz infantil era deplorável.
- Por que você não gosta dele?
- Por que ele é um Demônio, porra! O lugar dele não
é aqui. Quem sabe o que ele está arrumando? Ele é
uma farsa. Nem mesmo tem aquele rosto. Olha para ele, parece um ator
de cinema, certo? Mas não é. Aquilo é um disfarce.
Na verdade, ele é horroroso como todos os demônios, tem
uns negócios saindo das costas, acho que é para respirar
ou algo assim.
- Então, você já o viu?
- Eu dormi com ele se quer mesmo saber. Ele se acha o tal, mas não
está com essa bola toda.
- E por isso você o odeia?
- Claro que não. Eu o odeio porque... olha, talvez ele não
seja tão ruim assim, se ficar no canto dele e não atrapalhar
a gente. O que me incomoda mesmo são estes malditos licantropos.
É homem-isto, homem-aquilo, por toda a parte! Ei, você
não é aquele escritor? Peter Antonov?
- Danov. Peter Danov.
- Não é você que teve uma tutora Mulher-Tigre?
- Sim. Por quê?
- Porra, cara! Que nojo!
- Guarde seus preconceitos para você, Rasputin.
- Meu nome é Fiodor. Fiodor Rasputin. E não estou falando
de preconceitos, estou falando de fatos, meu caro.
A conversa estava durando mais do que Danov poderia desejar. Não
conseguia ver uma forma educada de sair pela tangente. Tinha vontade
de levantar o outro vampiro pela gravata e arremessar contra a parede
mais próxima. Já ouvira aquele monte de lixo racista
um milhão de vezes antes e era a última coisa que estava
procurando naquela noite. O cheiro de álcool também
já começava a embrulhar seu estômago. Fiodor pegou
um copo de algo na bandeja de um garçom que passava perto,
virou de um único gole e encarou Danov com firmeza.
- Tigres e vampiros são inimigos, Danov. Isso não vem
de hoje e não vai terminar agora.
- Está ultrapassando os limites da civilidade, Rasputin. Esta
é uma reunião para celebrar a paz e para confraternizar-nos.
- Bobagem. Você e eu sabemos disto. É tudo parte do plano
dos licantropos para dominar tudo. Fingir que são nossos aliados.
Freqüentar nossas festas. Mas na verdade, eles são bichos.
Bichos que andam em pé. Nem dão uma boa foda!
- Acho que esta conversa está encerrada.
- "Acho que esta conversa está encerrada...", guarde
esta merda de elegância Kravmore pra você, amigo. Você
vai ver! Uma noite destas você vai despertar e ver que sua "querida"
babá deixou o povo dela entrar no seu castelo e, quando você
se lembrar do que eu disse, já vai ser tarde demais. Uma grande
estaca de madeira vai ser enterrada no seu peito elegante! Não
espere civilidade deles. São bichos, Danov. Para serem caçados.
- Faça... um favor para sua saúde: não fale mais...
comigo!
As presas de Danov saltaram para fora de sua arcada e se estenderam
ameaçadoras. Seu olhar transfigurado demonstrava um ódio
acumulado de uma vida. Virou-se e se afastou, antes que fizesse alguma
da qual iria se arrepender mais tarde. Ainda ouviu a voz repulsiva
de Fiodor escorrendo como lama negra se espalhando pelo ar:
- Quer encarar? Acha que eu tenho medo de você, seu filho da
mãe? Pode vir, Kravmore. Eu não tenho medo de você
e da sua corja de licantropos. Pode trazer todos eles. A Rússia
não vai cair, Danov. Estamos atentos. Demônios filhos
da puta, todos vocês!