Narrativa ficcional inspirada no universo de RPG Naipes Estranhos para GURPS (em desenvolvimento). Vampiros, Fantasmas e um Assassino Serial em uma história de suspense e magia.
Dylan encarava o vampiro do outro lado do jardim. Jennifer ficara
mesmo impressionada com o tal de Danov. Não era para menos,
o outro tinha dois metros de altura, corpo de zagueiro de futebol
americano e trazia uma espada nas costas. Pela aparência, era
um Kravmore, a única Casa cujos membros fugiam daquele estereótipo
de criaturas pálidas e anoréxicas que era a norma entre
os demais. Alguma coisa na água da Escócia talvez. Mas
sua preocupação era exagerada. Os Kravmore, fora de
um campo de batalha, eram pacíficos e até educados.
E Dylan já deixara de achar perturbador dividir o ambiente
com um ser que mata para sobreviver. Perdem-se certos receios depois
que se morre. Não que vampiros fossem santos, não tinha
sido o Ás de Espadas responsável por sua morte? Mas
aquele escritor ali não exalava perigo. Peter Danov. Dylan
não gostava muito de literatura de terror. Bastava sua vida.
E a pilha de roteiros que batiam na sua porta todas as semanas.
Jennifer já ficara mais relaxada. Decidira experimentar um
daqueles licores coloridos feitos de frutas mágicas e agora
estava conversando com duas senhoras elfas que acabavam de chegar.
Falavam de moda, encontrando pontos em comum entre Beverly Hills e
a Terra dos Elfos por mais incrível que pudesse parecer.
Dylan estava circulando, tentando encontrar algum rosto conhecido
entre os convivas e nem escutou quando a música começou.
Mas em instantes os pares se formaram e passaram a dançar uma
valsa vienense, habilmente executada por uma pequena orquestra que
se instalara em um palco improvisado. Perdeu sua orientação
no meio dos casais e foi atravessado algumas vezes por pessoas que
não sabiam de sua condição. Era um de seus temores:
que um câmera ou um iluminador, ou mesmo um ator, o tocasse
sem querer e descobrisse a verdade. Tinha a fama de excêntrico,
de evitar contato humano, o que, no mundo de excentricidades que era
Hollywood, era considerado normal. Naquela festa, podia baixar a guarda
e transitar mais livremente. Ninguém se espantava.
Contudo, foi tocado. De verdade. A mão pousada em seu ombro
assustou-o mais do que podia prever. Era algo que seu corpo já
esquecera. Virou-se e a viu. Uma fantasma. Muito translúcida,
quase feita de fiapos esbranquiçados esvoaçados por
um vento invisível. Flutuava alguns centímetros acima
do chão e trazia consigo um olhar de profundo desalento. Seria
uma aparição, um fantasma recém-morto?
- Não queria assustá-lo.
- E quem disse que eu estou assustado?
Os dançarinos passavam ao redor deles e através deles.
Foi assaltado por uma rápida sensação de não
estar ali de verdade, mas sonhando em sua cama na casa de seus pais,
vinte anos atrás. Manteve a postura. Como sempre.
- Faz tempo que eu não encontro outro... fantasma. Pode me
chamar de Dylan Carmichael, ou só Dylan.
- Deborah. Deborah Swantson.
- Morreu de quê?
- Câncer.
- Péssimo. Fui assassinado, é uma longa história.
- Imagino que sim.
- E então? Gostando da festa?
- Não fui convidada.
- Já aconteceu muito comigo. Mas não ligue, depois você
se acostuma. Ou eles começam a te convidar.
- Eu preciso de você.
- Sou casado. Está vendo a aliança?
Ela riu e, por um segundo, ficou bela. Logo em seguida, a máscara
de tristeza retornou para o mesmo lugar, inalterada.
- Eu também sou. Ou era. Não seja tolo. É justamente
disso que estou falando.
- Sobre?
- Preciso que leve um recado para meu marido.
- Por que você mesma não leva para ele? Sem querer ser
mal-educado, veja bem.
- Ainda não estou preparada para encontrá-lo. Faz muito
tempo desde a última vez.
- Você precisa fazer um esforço. Não é
fácil, eu sei. Mas tem que encarar o problema de frente. Seja
forte, Deborah.
- Não diga mais nada. Obrigada, encontrarei alguém que
possa me ajudar.
- Espere.
Segurou o braço dela. Era bom segurar alguém depois
de tanto tempo. Como gostaria de poder fazer o mesmo com Jennifer.
Largou como se tivesse apertado uma serpente, antes que voltasse a
se acostumar com a sensação.
- Sim?
- Eu levo o recado. É só me dizer quem é ele.
- O nome dele é Joseph Swantson. Está vestindo um capote
marrom, tem mais ou menos a sua altura, cabelos e olhos castanhos.
- Humano, vampiro ou o quê?
- Ele é um Serial Killer.
- Sabe escolher bem você.
- Ele se transformou depois que eu morri. Bem depois.
- Então, o que você quer que eu diga para ele?
- Diga para ele parar de me procurar. Diga que eu o amo muito ainda
e será tão sempre quanto for minha existência.
Diga que eu estou olhando por nosso filho, cuidando para que nada
de mal aconteça a ele.
- Ainda acho que você devia dizer pessoalmente.
- Eu não posso ficar.
- Se for por falta de convite... eu posso falar com Pharad e ...
- Nem você.
- Por quê?
- ATHROPOS está aqui.
- Tem certeza?
- Eu posso senti-lo. Você não?
- Deixei meu detetor de Porteiros no hotel.
- Estou falando sério. Ele está aqui. Haverá
morte esta noite. Leve a mensagem a meu marido e saia o mais rápido
possível, Dylan Carmichael.
- A festa está apenas começando... não acho que
o Concílio convidaria o Porteiro.
- E nem a mim. Mas estou aqui, não?
Ela se afastou, flutuando de costas como alguns fantasmas sabiam fazer,
se misturando com os dançarinos e com a música, desaparecendo
tão rápido que Dylan nada mais pôde fazer a não
ser ficar pensando.