Narrativa ficcional inspirada no universo de RPG Naipes Estranhos para GURPS (em desenvolvimento). Vampiros, Fantasmas e um Assassino Serial em uma história de suspense e magia.
Capítulo
11
Swantson estava isolado em um canto, encostado em uma árvore,
com as mãos no bolso, esperando alguma coisa acontecer. Desistira
de comer. Pensava em sua primeira esposa e em como todos aqueles pretensos
investigadores paranormais podiam não ter nem mesmo uma única
pista do paradeiro dela. Ela morrera de câncer quando seu filho
Cristopher ainda tinha cinco anos. Por muito tempo, Swantson tentou
criar o garoto sozinho e seguir a vida da melhor maneira possível.
Mas Deborah fazia falta. Para ambos. Quanto mais Swantson se lembrava,
mais seu amor por ela crescia. Ficava imaginando como teria sido se
ela ainda estivesse viva e tinha certeza que todas aquelas coisas
loucas que aconteceram depois não existiriam. Nada de Baralho,
nada de assassinatos em série, nada de chantagens. Porra nenhuma.
Seria ele, Deborah e Cristopher. Uma família feliz e comum
de um contador. Treze anos não eram o bastante para ele esquecer
ou parar de pensar: ela estava lá fora em algum lugar.
- O senhor é difícil de achar, senhor Swantson.
A voz vinha de seu lado esquerdo. Uma voz de velha. Respondeu sem
se virar, mas seus dedos buscavam inconscientemente a coronha de um
dos Colts.
- Não tanto quanto gostaria, Matriarca.
- Vejo que não há necessidade de apresentações,
então. E vejo também que veio preparado.
Sotaque inglês por baixo da rouquidão da idade. Uma voz
formal para uma chantagista
- Preparado para acertar as contas, Madame. De um jeito ou de outro.
Virou-se. Estava com os dois revólveres empunhados e apontava
para a cabeça da Matriarca. As árvores encobriam o que
estava fazendo. Estava afastado do núcleo da festa e já
escolhera uma rota de fuga depois que os tiros ribombassem.
Matriarca aparentava ter mais de oitenta anos. Longos cabelos brancos
despenteados se espalhavam por suas costas e uma infinidade de rugas
marcavam seu rosto. Tinha olhos fundos que fitavam impassíveis
os canos das armas. Vestia algo que deveria ter saído de alguma
companhia teatral shakesperiana. E Swantson podia ver através
dela.
- Sou um fantasma, senhor Swantson. Como o senhor já deve saber,
balas não me afetam em nada. Sugiro que guarde teus brinquedos
antes que alguém perceba. Posso lhe assegurar que, dependendo
do sucesso de nossa missão, eles sequer serão necessários.
"Piranha morta", pensou. Colocou as armas de volta nos coldres,
contrariado. Sua mente já se adiantara, tentando recapitular
o que poderia ferir um fantasma. Já tinha ouvido algo a respeito
antes, mas não lembrava o quê. "Balas de prata?".
Não. Isso era para Licantropos. Era alguma coisa mágica.
- Não perca teu tempo imaginando formas de me machucar, senhor
Swantson. Posso sentir teu ódio neste momento. Mas não
quero que pense em mim como uma inimiga. Pense na Treasures &
Secrets como uma oportunidade única. Eu serei tua sócia.
- Vá se foder.
- Atividades sexuais estão além de minha capacidade
atual. Logo, ignorarei teu linguajar americano limitado e tua ofensa.
- Você e sua empresa de merda mandaram um esquadrão da
SWAT me pegar.
- Precisávamos avaliar tuas condições de cumprir
tua parte no projeto.
- Como me descobriram?
- Isso é um segredo comercial. Não estou autorizada
a revelar.
- Porque eu?
- O senhor é o melhor em teu ramo de atuações
que tínhamos disponível.
- O único que vocês podiam chantagear, esta é
a verdade.
- Se preferir.
Magia. Fantasmas podiam ser feridos com Magia. Bolas de Fogo, Relâmpagos,
aquela pirotecnia toda. Mas apenas metade do dano normal, parecia.
Não que fizesse diferença. Ele não sabia Magia
e nem poderia aprender. Era uma das limitações do seu
"ramo de atuações". Tinha a vantagem de ser
imune à Magia. Ou quase imune.
- O que você quer dizer com "temos informações
plenas e comprovadas sobre seus verdadeiros pais"? É vergonha
em seu mundinho de fantasma ser filho de uma freira e de um estuprador?
- Temo que o senhor não esteja de posse das informações
corretas sobre sua filiação.
- Sou a cara da minha mãe. Não me venha com histórias.
- O segredo não envolve tua mãe. Mas teu pai.
- Eu tenho os olhos do meu pai. Eu vi as fotos. E de qualquer forma
ele está morto. Morreu de frio, o pobre desgraçado.
- Sim, ele está morto.
- Então o quê? Virou um Fantasma também? Mais
um?
- Já estava morto quando engravidou tua mãe.
Tinha um tipo de espada que poderia cortar fantasmas da mesma forma
que cortava os vivos. Esquecera o nome.
- Como? Não estava prestando atenção.
- Eu disse que teu pai já estava morto quando violentou tua
mãe.
- Agora você conseguiu me irritar. Explica ... esta merda direito
ou vou encher sua cara de bala, quer faça efeito ou não.
- Já ouviu falar de ATHROPOS, senhor Swantson?
- Não. Seu tempo está se esgotando.
- ATHROPOS é a personificação da inevitabilidade,
o Caçador de Almas descrito no Necronomicon. Ele é o
responsável pela destruição dos espíritos,
tem a forma de todos os Medos, da Fúria e da Insânia,
entidade de muitas capacidades. Imprevisível e incansável.
- E...?
- Ele é teu pai.
- Meu pai é um bêbado! Você mesma disse!
- James Summer foi vítima de um ataque cardíaco fulminante
dois dias antes de teu destino cruzar o de tua mãe. Seu corpo
foi possuído pelo espírito do Porteiro para que ele
experimentasse os prazeres carnais novamente. Já havia sido
feito antes e será feito outra vez no futuro. És filho
de ATHROPOS, senhor Swantson!
Ela apontava um dedo ossudo para ele e sua voz fugira levemente daquele
tom formal que vinha seguindo até então. Ele enxergou
uma mistura de ódio e medo no fundo dos olhos do fantasma.
Mas não de mentira.
- Então, sou filho de... um Deus?!
- O Porteiro controla a passagem entre o Reino dos Vivos e o Reino
dos Mortos. Ele persegue pessoas como eu no intuito de conduzi-las
em uma viagem sem retorno para além do Ponto Cego.
- Desculpe, mas poderia explicar melhor para pessoas como eu, vivas?
- ATHROPOS é uma realidade com a qual todos os fantasmas precisam
conviver. Em algum momento de nossas existências todos nós
teremos que enfrentá-lo para garantir nossa permanência
entre os vivos por mais um tempo. Ele nos caça. E sempre nos
encontra.
- Azar o seu. Eu não tenho nada a ver com isto.
- Ele é muito poderoso. E tem muitos disfarces. Carteador,
tem um Baralho poderoso. E é extremamente violento. Poucos
conseguem escapar de suas garras.
- Como eu disse: azar o seu.
- Será teu se todos os fantasmas do mundo descobrirem quem
é o filho de ATHROPOS. Eles não vão chantageá-lo,
senhor Swantson. Vão sequestrá-lo e utilizá-lo
como refém contra o Porteiro.
- Ele não parece ser o tipo que negocia com seqüestradores.
- E não é. Ele certamente destruiria o senhor e o fantasma
também.
- Mas apenas se alguém abrir o bico sobre isto, certo?
- Exatamente.
- Por que será que não estou convencido? Esta história
toda parece fantástica demais.
- Mais fantástica do que o senhor ser um servo de Anúbis,
o Deus-Chacal da morte? Mais fantástica do que o senhor conseguir
manifestar um Baralho espiritual que, entre outras coisas, permite
que o senhor ressuscite? Mais fantástica do que os Elfos e
Anões aqui reunidos, exilados de um outro universo? Mais fantástica
do que...
- Está bem. Pode ser verdade. Mas é difícil de
engolir de uma vez só.
- Todos os fantasmas que existem temem e odeiam ATHROPOS. Acontecerá
o mesmo com o senhor.
Precisaria com urgência daquela espada que corta fantasmas.
De preferência, para aquela noite.
- Então, eu trabalho para você, para sua empresa, e vocês
ficam de boca fechada.
- Correto.
- Por enquanto.
- Teus préstimos não serão necessários
no futuro. Se formos bem-sucedidos hoje.
- E o que vamos fazer? Matar alguém?
- Não. Será um processo de extração de
recursos.
- Como assim?
- Eu, o senhor e o nosso terceiro sócio iremos roubar Sutterville
Dream.