Narrativa ficcional inspirada no universo de RPG Naipes Estranhos para GURPS (em desenvolvimento). Vampiros, Fantasmas e um Assassino Serial em uma história de suspense e magia.
Capítulo
9
- Seja bem-vindo a minha casa, senhor Swantson. - disse Pharad. -
Soube que é o convidado da Matriarca. Temo que ela ainda não
tenha chegado, mas sinta-se à vontade. Coma e beba, meu rapaz.
É tudo por conta do Tesouro Inglês hoje.
O homem que lhe estendia a mão era aproximadamente de sua altura,
mais encorpado um pouco. Tinha uma mão rude, um aperto sincero
e anéis espalhafatosos. Sua roupa era simples, porém
bonita: uma túnica oriental com listras coloridas o cobria
do pescoço aos pés, com sandálias de couro. Sua
exuberância e posição estava traduzida nas jóias
e no olhar. Seus olhos eram ao mesmo tempo gentis e profundos. Desculpou-se
com uma mesura e foi recepcionar um casal que acabara de chegar.
Swantson trazia consigo duas Colts .357. Não uma, mas duas.
Se tivesse mais tempo para pesquisar em Manchester, teria trazido
uma pistola. Se tivesse mais espaço para planejar, um rifle
de assalto, automático de preferência. Não. Estava
entrando em pânico. Nunca usara um rifle antes, provavelmente
se machucaria. Os dois revólveres deveriam bastar. Só
esperava não ter que enfrentar um peso-pesado, como um vampiro
ou um Homem-Tigre. Neste caso, sua melhor chance seria correr. Começou
a estudar as saídas do jardim e concluiu que eram poucas.
Para onde olhasse, via Carteadores. De todos os tipos, alguns de tipos
que ele sequer ouvira falar. Precisava se informar melhor. E seu humor
já estava azedando.
"Matriarca... agora temos um nome em que pensar". Pelo que
entendia, aquele nome não significava muita coisa. Poderia
se referir a uma velha senhora de 120 anos, usando vestido com bordados,
de andar encurvado e voz entrecortada por uma respiração
irregular, mas também poderia ser o nome usado por uma semideusa
de Outra Dimensão, Senhora da Morte, da Dor e da Chantagem
ou qualquer coisa assim. "Nomes têm poder", dissera
O´Brien (ou alguém que gostava de ser chamado de O´Brien).
Mas Swantson preferia Swantson. Não o "Assassino do Cortiço",
"Matador do Metrô", "Estrangulador de Boston",
nem nada por este caminho. Swantson não tinha por hábito
ficar inventando sobre si mesmo, tentar atribuir uma razão
mais profunda para aquilo que fazia ou se imaginar mais poderoso e
perigoso do que realmente era. Ele era apenas alguém que necessitava
matar ou ele mesmo morreria de uma forma lenta e dolorosa. Nada mais,
nada menos. Ou em suas próprias palavras: "morrer todo
mundo morre, de várias maneiras; eu sou apenas uma opção".
Procurou relaxar. Seguiria o conselho de Pharad. Se a Matriarca ainda
não havia chegado, ele tinha tempo para circular, comer alguma
coisa para forrar o estômago. Não havia comido nada nas
últimas vinte e quatro horas exceto um lanche no avião
e duas xícaras de café na estrada.
As mesas estavam sortidas. Muito sortidas. Swantson ficou impressionado
com a fartura. Havia ali comida suficiente para alimentar um país
africano e com qualidade. Seria tudo aquilo mesmo pago pelos contribuintes
da Coroa? Ele imaginava que não. Aquela gente era rica, tinha
redes de mineração de ouro e pedras preciosas na Faéria,
o mundo dos Elfos, e podia prever os resultados do Mercado de Ações
usando Magia. Era tudo bem mais fácil do que para ele, se escondendo
em cortiços onde antigamente não passaria nem na porta,
comendo sanduíches baratos em lanchonetes idem e usando as
mesmas peças de roupa por muito tempo. Swantson não
tinha mais conta em banco, nem cartão de crédito e lá
estava ele na festa dos figurões, sendo chantageado por um
deles, e aproveitando para ter uma refeição completa.
Pensou em comer um pedaço do imenso cordeiro assado que tinha
em uma das mesas, mas, como ninguém ainda tinha cortado a peça,
ficou inibido. Olhou em volta e viu um Anão com um pedaço
de coxa de peru, pingando gordura por sua barba e se espalhando na
grama, conversando com dois Elfos que bebericavam um estranho líquido
róseo e comiam doces. Fora esse grupo, ninguém mais
estava comendo nada, apenas bebendo. Ia evitar o álcool até
saber por que fora chamado ali. Pegou uma coxa também e se
afastou das mesas. Mastigou com pouca vontade, mesmo de barriga vazia.
Sentia somente os dois canos frios encostando nas laterais de seu
corpo. E uma ligeira apreensão.