Narrativa ficcional inspirada no universo de RPG Naipes Estranhos para GURPS (em desenvolvimento). Vampiros, Fantasmas e um Assassino Serial em uma história de suspense e magia.
Capítulo
7
O táxi parou. Havia poucos veículos parados no estacionamento.
Carros de luxo, em sua maioria.
- Chegamos muito cedo. Odeio chegar cedo.
Jennifer Long se atrapalhou um pouco ao saltar do veículo.
Os saltos altos tinham sido uma péssima idéia. E com
1,85m ela nem precisava deles. Olhou em volta e sentiu um delicioso
cheiro junto com a brisa noturna: havia um jardim de flores, talvez
rosas, não muito distante dali.
Dylan saltou atrás. Estava de fraque. Na verdade, era o mesmo
fraque que ele usara na cerimônia do Oscar daquele ano. Longe
dos fotógrafos, não havia o menor risco em repetir a
roupa. Ela adorava quando ele vestia fraque. Suas melhores qualidades
se sobressaltavam e ele parecia mais seguro de si, mais confiante.
Mais vivo, talvez. Esperou pelo espocar dos flashes, mas nada veio.
Nenhum fotógrafo mesmo. E nenhum outro convidado por perto.
Apenas dois seguranças na entrada. Dois Carteadores. "Começou",
ele pensa. Dylan faz um sinal combinado com sua esposa e ela paga
o taxista. Somente quando não é mais possível
ver o carro na estrada, ele fala:
- Neste caso, atraso não é chique. Com ênfase
no "não". A Iniciação deve acontecer
somente à meia-noite. Temos quase sete horas para circular
por aí, conhecer gente interessante e tudo mais.
- Que silêncio. Não há música? E os outros
convidados?
- São pessoas discretas. Há proteções
para impedir que o som ultrapasse os limites da propriedade. E há
outras formas de se chegar sem ser de carro.
- Acho melhor eu nem perguntar.
- Já disse que você está linda, hoje?
- Só algumas vezes.
- Você está linda, Jennifer.
Ela corou. Dylan conseguia produzir este efeito nela com grande facilidade.
E já fazia isto antes de eles casarem. Antes mesmo de ela saber
que ele não estava mais vivo havia anos.
- Tome cuidado, Jennifer. Não aceite presentes de estranhos.
Não se afaste muito de mim.
- Você disse que eles são civilizados.
- Vampiros, licantropos, fantasmas, assassinos seriais, elfos, feiticeiros.
Todos civilizados. Civilizadíssimos, eu diria.
- Não pode ser pior que Hollywood. Eu sei me cuidar. Não
se preocupe.
- Eu não estou preocupado. É uma festa do Concílio
dos Cinco.
- Quem são eles?
- Depois eu explico.
Dylan Carmichael entregou seu convite aos seguranças. "Para
Dylan Carmichael e acompanhante". Era toda a identificação
que precisava. Um dos guardas (ele não sabia com certeza se
seria um Homem-Urso ou apenas alguém muito, muito forte) segurou
o convite e murmurou algumas palavras incompreensíveis. Uma
carta de baralho surgiu rapidamente na sua outra mão e dissolveu-se
no ar, deixando um rastro de brilho feérico que durou muito
pouco. Dylan percebeu seus olhos se iluminando em padrões aleatórios
e depois voltando ao normal. Tudo não durou mais de um segundo.
Mas mesmo que tivesse durado um minuto, Jennifer não teria
visto nada. O segurança sorri e lhe dá as boas-vindas
em nome de Pharad.
- O que houve? - pergunta Jennifer.
- Nada. Apenas um pouco de Magia.
Eles transpõem os limites do portão. E tudo muda. Tudo.
Nem todos os veículos parados no estacionamento são
carros. É a primeira coisa que Jennifer percebe. Há
carros, sem dúvida. Até mesmo alguns da década
de 40, velhos cadillacs perfeitamente preservados e algo que foi montado
de várias partes de outros carros em um conjunto não
muito harmônico. Mas há também duas carruagens
alvas como a neve que não parecem pertencer a nenhum período
histórico conhecido, com maçanetas de ouro nas portas
e emblemas pintados em cores rubras. Bandeirolas com brasões
enfeitam a parte de cima das carruagens. "Contos de fadas",
é o pensamento que vem de imediato em sua mente. Mas o efeito
se desfaz ao ver os animais que puxam os veículos. Criaturas
de aspecto reptiliano, com reluzentes escamas esverdeadas brilhando
no fraco sol da tarde. Seus olhos amarelos, de extrema vivacidade,
são o único ponto móvel dos animais, continuamente
girando e focando em tudo ao seu redor. Fora isso, os dragões
permanecem estáticos em seus arreios de couro, sentados em
repouso. São maiores do que um cavalo. E tem garras. E asas
de couro, recolhidas rente ao tronco.
Há um homem alto, vestindo uma espécie de uniforme de
veludo, junto às carruagens. Ele sorri para Jennifer, de longe,
e ela vê que ele só tem um olho. Um único olho
no centro da testa.
Passado o choque inicial, a música vai ganhando volume em seus
ouvidos e ela se pergunta que tipo de instrumento seria capaz de produzir
som tão suave e ao mesmo tempo tão penetrante. Logo
em seguida, vem o som familiar de conversas e risos. E ela vê
os convidados no jardim ao lado.
Faixas de seda de diversas cores se espalham entre os galhos de árvores
e estandartes espalhados por toda a parte estampam os quatro naipes
do baralho. Independente disto, o jardim era um espetáculo
a parte. Se indagada mais tarde sobre o que achara dos jardins de
Sutterville Dream, Jennifer responderia que palavras são inadequadas,
suas lembranças ganhando contornos de sonho. A quantidade de
borboletas riscando o ar não podia ser mensurada e vários
animais silvestres podiam ser vistos reunidos, conversando entre si
em uma língua que somente eles e uns poucos privilegiados dominavam.
O aroma do manto floral era quase palpável, algo que permaneceria
em sua roupa (e sua alma) para sempre. Frutas de espécies que
não poderiam crescer naquele clima brotavam de árvores
que sequer deveriam ter frutos. Neste jardim, Jennifer perceberia
ainda naquela noite, não havia uma única folha que não
fosse perfeita, delicada, fresca, fosse de arbusto, flor, árvore
ou grama. E mesmo a ordem dos galhos guardava um significado de boa
sorte e paz, oculto para seus olhos destreinados, mas sentido em cada
parte do seu corpo. Uma sensação inconfundível
de segurança.
- O idioma Élfico tem uma expressão muito adequada para
este momento. "Golfrungnir", "onde o Belo reina".
- diz Dylan.
- É tudo... tão impressionante. Eu... nem sei...
- Não diga nada. Não fale. O momento está perfeito.
Dylan estende sua mão, buscando a dela, e, por um instante,
ele quase consegue segurá-la. Mas ele a atravessa, sem produzir
nada mais do que um arrepio ameno. Seus dedos permanecem entrelaçados
ao pulso de sua esposa e, então, se afastam rapidamente.