Narrativa ficcional inspirada no universo de RPG Naipes Estranhos para GURPS (em desenvolvimento). Vampiros, Fantasmas e um Assassino Serial em uma história de suspense e magia.
Dylan Carmichael aponta para um beco de Londres, um entre milhares.
Dois latões de lixo abarrotados alinhados na parede de tijolos
de um prédio, um bueiro fechado no fundo, uma pichação
dos "Sex Pistols" de anos atrás e nada mais. Nada
de pentagramas, mendigos com um olhar estranho, manuscritos proibidos
ou algo assim. Um beco. Qualquer. Onde Dylan Carmichael morreu.
- Eu sinto muito.
- Não há o que sentir. Estamos a passeio, esqueceu?
Temos uma festa para ir!
Dylan, que não é seu nome de batismo, mas é como
ele prefere ser chamado, olha para sua esposa, compara suas duas vidas
e conclui rapidamente que o passado foi um extraordinário desperdício
de força e fôlego. Ele está melhor e mais feliz
agora. Mesmo morto. E vir até este beco antes da festa foi
uma tolice. Jennifer está com um olhar melancólico.
Se eles permanecerem por muito tempo, ela certamente chorará.
Ele se esforça para sair do lugar, chamar um táxi e
partir. Mas não consegue.
Simplesmente, não consegue.
- Temos uma festa para ir... - ele murmura desta vez.
- Isto não está certo. Você não tem que
ir. Nós não temos que ir. Vamos voltar para casa.
- Eles arrancaram minha alma do corpo bem aqui...
- Vamos, Dylan.
Se ela pudesse pegá-lo pelo braço, ela o teria feito
neste momento. As pessoas passam pela rua sem se darem conta de que
há um fantasma bem ao lado delas. A menos que alguém
esbarre em Dylan obviamente. Jennifer repara que ninguém também
sabe quem ela é. Fora de Los Angeles, para ela, já é
outro mundo completamente diferente. Para todos os fins, o diretor
Dylan Carmichael e sua esposa, a atriz Jennifer Long, estavam na Inglaterra
procurando locações para um próximo projeto.
- Eles se deram ao trabalho de roubar meu passaporte e todos os outros
documentos. Destruíram minhas digitais, minha arcada dentária
e meu rosto...
- Dylan...
- ... fui enterrado em um cemitério de indigentes, descobri
depois. Não pude ver meu próprio enterro. Nem ao menos
isso. Não sei em qual cova meus ossos estão. Eu também
perdi este vínculo. E muito mais. Dois meses aprisionado em
Morte, vendo os Carteadores indo e vindo, alguns morrendo, outros
não. E vi a Aniquilação. Nunca senti tanto medo.
Tanto frio...
- Chega, Dylan. Vamos, agora.
Ela não chorou. Ofereceu para ele um olhar cálido que
dizia muito mais que um toque poderia expressar. O beco voltou a ser
apenas um espaço entre dois prédios, sujo e vazio.
- Bem, parece que temos uma festa para ir. - disse ele - Já
escolheu sua roupa?