Narrativa ficcional inspirada no universo de RPG Naipes Estranhos para GURPS (em desenvolvimento). Vampiros, Fantasmas e um Assassino Serial em uma história de suspense e magia.
Capítulo
2
Não há barulhos pelo castelo. Longos corredores e salas
vazias, desprovidos de sons. Nada de crianças brincando de
correr pelos labirintos de portas, passagens em arco e escadarias.
Nada de serviçais atarefados se movimentando de um lado ao
outro, trocando cortinas, encerando o chão ou levando recados.
Nada. "Nem mesmo o vento sopra no Castelo Kravmore, no momento
em que o Velho acorda", pensa Chinoko. Tudo se cala e se esconde,
nada floresce.
A mesa da sala de jantar já está pronta. Os pratos servidos
com a costumeira abundância, sua variedade indo da cada vez
mais rara carne de cervo, caçado nos bosques ao redor, a frutas
exóticas colhidas em um outro mundo e pagas com moedas de ouro
puro. E com o costumeiro descaso o Velho em nada toca. Chinoko se
acomoda em seu lugar, ao lado de Alekssandri, e estuda com interesse
um suculento pedaço de frango fumegante não muito distante
na mesa quilométrica.
O patriarca senta-se à cabeceira. Seus cabelos são longos
e totalmente grisalhos, amarrados com uma tira de couro que o acompanha
desde tempos de guerra e sofrimento. A barba, finamente aparada, guarda
poucos fios negros. Apesar dos séculos que pesam sobre seus
ombros, ele senta-se altivo e ainda possui uma presença impactante.
Pode-se dizer que ele enche a sala com seus quase dois metros de altura
e músculos bem delineados nos braços anciões.
Ele parece ser mais alto que o neto, mesmo não sendo. Seus
profundos olhos azuis fitam uma outra época e ele não
demonstra desagravo pelo atraso de Chinoko. Seu comportamento tem
se tornado imprevisível nos últimos anos, sua fome por
alimentos e bebidas descendo em uma espiral contínua. Chinoko
já percebeu: o Velho nada mais come desde o Natal passado.
Traz ao lado da cadeira uma espada antiga, um montante, cuidadosamente
afiada, maior do que muitas pessoas e mais pesada do que aparenta.
Ele poderia cortar uma das colunas da sala com ela, e de um único
golpe, se fosse necessário. Agora, para onde ele vai, o montante
o acompanha. Em suas mãos enluvadas, anéis de vários
metais preciosos, com símbolos e runas da Casa. Alguns foram
presentes. Outros foram conquistas. E num dia bom ele não se
importaria de contar suas histórias para algum visitante interessado.
Sua indumentária poderia ser considerada elegante, dois séculos
atrás. Agora, exalava um ligeiro odor de mofo e sangue seco.
Mesmo sendo lavada cuidadosamente pelos empregados todas as semanas.
Era algo que impregnara. O patriarca Kravmore estava vivo quando os
ingleses invadiram a Escócia. Em 1982, ele fica pouco à
vontade.
Alekssandri McAllister não espera mais por seu avô para
começar a comer. São nove horas da noite e ele almoça
depois de um longo e inquieto sono. De todos os netos do patriarca,
Alekssandri é aquele que guarda mais semelhanças físicas.
Seus olhos, seu porte vistoso, seu equilíbrio. Chinoko sabe
também o quanto o patriarca o aprecia, provavelmente seu neto
favorito e o único com residência fixa no castelo (apesar
das andanças constantes). Ela acredita que este afeto, raro
na família, surgiria mesmo se não houvesse as tão
famosas circunstâncias envolvendo seu nascimento. E o sentimento
é mútuo. Alekssandri ama e respeita seu avô. E
é por isso que ele agora está receoso de começar
o assunto.
Chinoko come em silêncio, esperando que Alekssandri diga alguma
coisa. "Às vezes, ele ainda me lembra um pequeno filhote,
indeciso, inseguro", ela pensa. Alekssandri já tem 31
anos e não precisa mais dos cuidados de sua babá chinesa,
agora amiga e membro não-oficial da família. Mas para
um Vampiro, ele ainda é jovem. Jovem demais para ser considerado
pelos outros mais do que um aventureiro, um escritor nas horas vagas
e, principalmente, alguém com um segredo desagradável
no passado. Pela sua impetuosidade e força, ele poderia ter
sido aproveitado como um valoroso guerreiro nos numerosos confrontos
entre as Casas em épocas distantes. Mas seu comportamento contestador
e sua intolerável tendência a vencer obstáculos
quebrando regras não-escritas o tornavam um espinho no pé
do clã. Sua predisposição para atrair problemas,
ou, nas palavras dos silenciosos detratores, "sua paixão
pela aventura", já o colocou em posições
desconfortáveis para uma Casa que buscava atravessar a modernidade
sem fazer barulho. Ele e "sua babá-monstro" eram
um estorvo para os Kravmore. Exceto para o avô. Para o patriarca,
Alekssandri era uma chance de corrigir os erros cometidos com Duncan,
seu filho. E o Velho era os Kravmore, enquanto vivesse.
Alekssandri termina seu almoço e encara o avô. Neste
momento ele percebe que o patriarca permaneceu durante todo o almoço
observando o neto. Sem hesitar, ele fala do pesadelo. Sempre igual.
Aquele sonho que o atormenta desde a infância. O sonho com os
Ursos e os Assassinos. "Fronteira da Finlândia novamente",
pensa Chinoko, "cada um de nós carrega sua cicatriz; eu
tenho a minha; Alekssandri, seus pesadelos; e o Velho...". Sem
interrupções, ele conta o sonho mais uma vez, com os
mesmos detalhes de anos: o sopro da neve, o brilho da prata, o jorro
de sangue. E os Assassinos. E a Espada. Sem demonstrar emoções,
o patriarca escuta. Chinoko fecha os olhos quando Alekssandri termina,
antes dele emendar no assunto principal:
- Recebi uma carta de Eldritch, de Berlim.
Eldritch, um Juliot desgarrado, era ex-integrante do que os tablóides
chamaram de "London Boys" (embora Eldritch fosse nascido
e criado na Alemanha, tivesse um sotaque indisfarçável,
e não fosse mais um "boy" a pelo menos meio século).
Hanz Eldritch, Alekssandri McAllister (nascido na China, criado na
Escócia), o Homem sem Rosto (origem ignorada) e Jack O' Lantern
(irlandês convicto). Os "London Boys". A maior parte
do tempo em que Alekssandri esteve fora da propriedade Kravmore, ele
passou com eles, em algum canto entre Amsterdã e a dimensão
mais próxima resolvendo problemas de todo tipo, enfrentando
horrores que a maioria das pessoas preferia achar que sequer existiam.
Desafiaram a morte mais de uma dúzia de vezes. E conseguiram
igual quantidade de inimigos permanentes, aliados, bebedeiras, algumas
canções de rock compostas por Eldritch, um livro de
não-ficção de McAllister vendido como ficção,
namoradas em cidades diferentes e, no final de tudo, a separação
decorrente da maturidade.
Uma carta de Eldritch significava problemas.
- Vai haver uma festa de Iniciação. Na propriedade de
Pharad. Do Concílio. Haverá uma vampira iniciada. O
nome dela é Kira. Eldritch foi convidado. Mas cedeu o convite
para mim. Ele andou investigando. O senhor sabe. Ele tem muitos contatos.
Juliot. Ele conhece minha história. A história de meu
pai. Kira aparentemente veio do Oriente também. Ela pode ser
minha irmã. Outra filha de meu pai.
- Impossível. Eu saberia.
A resposta do patriarca surpreende Chinoko. Não pelo que ele
diz, mas pelo fato de sua voz se propagar pelo salão como uma
onda de negativas.
- Isto é um não?
- Eu saberia no instante em que ela pisasse na ilha.
- Mas, se meu pai está vivo, talvez...
- Eu não sei se Duncan está vivo.
Ela reconhece o silêncio que se segue. Já o presenciou
antes, incontáveis vezes, nesta sala ou em outras. Um silêncio
combinado, uma mistura de assuntos delicados e planejamentos adiantados.
Nenhuma palavra mais é trocada entre os vampiros, mas o consenso
prevalece. O patriarca não acredita em uma palavra vinda de
Hanz Eldritch. Da mesma forma sabe que não poderá impedir
o neto de descobrir por seus próprios meios suas próprias
verdades. Alekssandri não é mais um "London Boy".
E para que ele se torne um Kravmore terá que trilhar seu próprio
destino.
O Velho se levanta, sem anúncios, e parece mais cansado, mais
velho, do que quando se sentou. Ele contorna a longa mesa e se aproxima
do neto com passos calculados. Passa por trás de Chinoko, que
se encolhe quase imperceptivelmente. E se posiciona atrás de
Alekssandri. Sem se virar, ele escuta as palavras finais do avô:
- Mande lembranças minhas a Pharad. E leve aquela maldita espada
com você.
O Velho se afasta em direção aos seus aposentos, passando
por um castelo envolto no silêncio e no temor.